sexta-feira, 1 de abril de 2011

Mundos Paralelos - Capítulo 4 - 4.6

4-4.6

(Diário pessoal de vôo do Capitão Luis Fagúndez, da Polaris).

Decidimos não esperar o amanhecer, como tinha sido combinado com Aldo, já
que Inge, conhecedora da curiosidade e teimosia de Aldo, nos disse que ele atravessaria o lago nessa mesma noite, sabedor de que os recolheríamos pela manhã.

Pouco depois sobrevoávamos o areal. De cima se podiam ver as luzes da Urbe marciana. Elvis sugeriu aterrissar na margem, de onde era transmitida a localização do sinal-código do navegador.


Desci na praia de areia úmida, perto de umas grandes
rochas. Entre elas e minha nave vimos um amontoado de coisas que reconhecemos como parte do equipamento dos exploradores. Pouco depois, Andrés, Elvis, Inge e eu descemos, seguidos por alguns dos meus homens e fomos até o equipamento.

–Olhem! – a voz de Elvis quase arrebentou meus fones – Marcas de lagartas!

–Onde?


–Aqui, mais de um metro de largura.


–Devem ser veículos possantes. Dirigem-se para o rochedo – observou Inge.


–Vamos seguí-las, esperem-me – disse a voz de Andrés no meu capacete.


Procurei-o com a vista e vi sua silhueta infravermelha na beira das águas,
vindo em nossa direção. Quando Andrés e mais um grupo reuniram-se conosco, iniciamos a subida ao rochedo no qual supúnhamos que deveriam encontrar-se os carros que deixaram aquelas marcas. No momento em que achei que vira umas silhuetas querendo ocultar-se no alto do rochedo, ouço nos meus fones a voz de Rojo Weiss, meu segundo de bordo:

–Venham! O barco está voltando!


–Aldo! – chiou Inge, estraçalhando meus ouvidos.


Voltamos, mas ao chegar ao terreno plano, tive a sensação de ser espionado e
olhei de novo e vi outra vez aquelas silhuetas movendo-se O infravermelho não permite perceber detalhes e não pude definir aquilo.

Aldo e seus acompanhantes subiram a bordo da Polaris e meus tripulantes
recolheram seu equipamento e o barco ao compartimento de carga. Decolamos em seguida e voltamos. Ao chegar, saíram ao nosso encontro as garotas.

Quê sorte!... Penso na minha esposa em Antártica. Agora vejo que estou longe
dela, longe mesmo. Isto tudo me lembrou da saudade que sinto dela...”
******



22 de maio. Amanhece.
Meus tripulantes ainda dormem.


Vou ao banheiro, barbeio-me e tomo um
banho enquanto vejo a paisagem pela clarabóia.


Foi minha primeira noite dormida
no nosso novo alojamento. Uma noite em que esqueci que estava em Marte e na qual tive um sonho erótico com minha esposa.

Coloco uma muda de roupa limpa e o traje. Verifico a carga da mochila,
ponho o capacete e saio ao exterior. Está fria esta manhã, o que me obriga a ajustar o controle térmico. Entro no alojamento principal da tripulação da Antílope e me recebe a bonita psicóloga Regina Cardelino.


Tiro o capacete e coloco as luvas
dentro. Ela pega-o sorridente e pendura-o na parede. Coloco minha mochila num cabide. Bárbara Blanes está sentada na frente do terminal, conversando com alguém de outro alojamento. Tamara Wilkins e Eva Klinger estão indo daqui para lá com coisas, e ouço a voz do Dr. Klinger no dormitório, cuja porta está entreaberta.

–Como estão os exploradores?

–Ótimos Luis. Nico, como todo médico, está exagerando. Não se preocupe
com a parafernália. Está dando-lhes revitalizantes via intravenosa. Ainda estão na cama. Nico não dormiu a noite toda. Ficou do lado deles sem arredar pé, atento ao menor movimento. Coisa ridícula!

–Isso demonstra um grande zelo da sua parte, não acha?


–Concordo Luis, mas não era para tanto. Confesso que sofri por eles, mas,
apesar de notá-los magros, não achei nada neles que me preocupasse.

Regina era uma jovem psicóloga, que além de ter estudado lingüística, tinha conhecimentos de medicina. Era uma linda e capacitada jovem de cérebro privilegiado, uma típica cria de Antártica, assim como minha esposa...

Nesse momento apareceu Nico, com a barba por fazer, seus olhos azuis
estavam avermelhados e o cabelo loiro desarrumado.

–Bom dia, doutor.

–Bom dia, capitão. Presumo que terá vindo para ver os heróis.


–Se for possível.


–Logo acordarão. As pastilhas e o alimento desidratado passaram a prova de
fogo. Foi só o que comeram. Perderam uns quilos e limparam seus organismos, mas aprendi muito com essa aventura deles.

Nesse momento, Tamara apareceu.


–Boris acordou e quer se levantar.


–Está bem. E me traga um café bem forte, por favor.


–É pra já, Nico, você está horrível. Deveria dormir um pouco.


–Depois.


Tamara desapareceu e Regina disse:


–Eu pego o café, Tama!


Boris apareceu recém penteado e cheirando a sabonete perfumado.


–E aí, “cara”? – disse com seu típico jeito irreverente de brasileiro.


–Como você está? – perguntei.


–Disposto para outra.


–Gostaria de saber alguma coisa a mais sobre vossa excursão campestre.


–Há muito que contar – disse ele rindo com sincera felicidade.


Regina entrou nesse instante com quatro taças de café preto que colocou em
cima da mesa e em seguida beijou carinhosamente seu namorado Boris.

–Obrigado, querida.

Nico e eu bebemos. O café estava delicioso. Sem dúvida brasileiro.


–Luis, se quer saber mais entre no sistema. Descarregamos as imagens restantes ainda ontem. Inge deve estar processando-as. Não é, Regina?

–Levantou cedo e foi para o terminal. Há quatrocentas imagens.

–Quero saber o que vocês viram do outro lado.


–Ah... Sim. A cidade deles. Vimos marcianos cara a cara. Eles nos viram e
gritaram. Nós os vimos e gritamos. Acho que nos assustamos com a quantidade e pulamos no barco. Olhando atrás vimos um grupo nos apontando incrédulos. Parece que não recebem muitas visitas.

–Todo Marte deve saber que estamos aqui – observou o Dr. Klinger.


–Sim podem fazer-nos a guerra, Luis, eles têm armas de alto poder.


–Vi a descrição que vocês fizeram – respondi – Mas nós temos um arsenal
nuclear suficiente para pulverizar este planeta. Não será fácil nos derrotar.

–Mas eles levam no cinto uma pistola que faz mais estrago do que uma granada de morteiro e talvez fure o vitrotitânio, Luis.
*******.


22 de maio, pela tarde.
Esta tarde; nos reunimos, para ver uma projeção feita pelo sistema, com imagens da exploração da floresta e do canal. Aldo mencionou o Engesa que ficou abandonado e eu mandei dois dos meus tripulantes a buscá-lo. Eles colocaram seus impulsores e elevaram-se à floresta, seguindo o sinal-código do Engesa.
*******.


22 de maio, anoitece.
Meus tripulantes ainda não chegaram com o Engesa, mas já se comunicaram e disseram que estão vindo pela trilha. Logo estarão aqui.


Como há muita gente, o
trabalho foi colocado em dia e o pessoal recolheu-se cedo para jantar e descansar.

No alojamento principal temos reunião de capitães. Jantamos, Aldo, Elvis, Andrés e eu. Após o cafezinho ser servido, entrego a mensagem do Dr. Valerión para Aldo, que a lê e após uma pausa olha-nos um por um.

–Não há mais mensagens para mim?


–Sim, estas – diz Andrés entregando-lhe um malote.


Aldo lê todas as mensagens enquanto nós tomamos o delicioso café.


–A Terra deve estar com mais problemas por estas horas, amigos.


–Quê novidade! – disse Andrés – sabemos disso.


–Fale – disse laconicamente Elvis.


–No atentado da Lua, como sabem, não só foram destruídas várias naves
como também morreram os nossos líderes principais, aliás, os que estavam visíveis, para serem alvo, voluntariamente, como sabemos. Agora temos apenas Valerión como líder visível e outro que nem eu sei quem é, mas Valerión me garante que ele está velando por nós. Se não me engano, este líder desconhecido, é o fundador do Esquadrão Shock, além de ideólogo.

–E onde se supõe que esteja esse líder?


–Não sei, Andrés. Sei que está em contato permanente com Valerión.


–Mas o que esse líder desconhecido pode fazer por nós?


–Parece que já está fazendo, Elvis. Pelo seu intermédio foi nomeado no lugar
do falecido Preissler; um militar Antártico fortemente doutrinado na Nossa Idéia, o tenente general Guerrero.

–Guerrero? O chileno Max Guerrero? – disse eu.

–O mesmo, Luis. O conhece?


–Claro que o conheço! – respondi entusiasmado – Servi na força aérea com
ele. Ambos somos de Puerto Montt, no sul chileno. Não podiam ter escolhido ninguém melhor do que ele para servir à Causa!

–Mas, que medidas foram tomadas por ele afinal? – perguntou Elvis.

–Por estas horas já deve ter isolado a Lua. Valerión mandou uma freqüência
para contato com ele na Lua para manter-nos informados, sempre que possível.

–Isso é bom? – observou Elvis – Em que nos ajuda a Lua isolada?

–Filtra e dificulta a entrada de parasitas camuflados e traidores. Além do
mais, monopolizou todo o transporte lunar; as bases espaciais próximas da Lua; ocupou os escritórios de Port Armstrong; colocou a produção a serviço da construção de colônias, comprou muitos mísseis nucleares da China; que parece que está por enquanto; do nosso lado, embora discretamente.

–Os malditos jamais conseguirão submeter à China, eles não têm como se infiltrar nela – disse Andrés – e menos agora, que o Japão resolveu ajudar com tecnologia por baixo do pano.

–Isso é bom, o chinês tem um idioma praticamente impenetrável, além da sua maior riqueza que é sua raça – disse Aldo – Não é assim tão fácil para os malditos parasitas camuflar-se na China.

–A colônia japonesa da Lua está pronta para lançar-se ao espaço – disse
Andrés – Colaboram com Valerión. Antes de vir, passei no complexo industrial que Valerión montou na Cara oculta.

–Isso é reconfortante. Entrarei em contato assim que seja possível – disse
Aldo, servindo-se outro cafezinho – Se Guerrero nos apóia, estamos com tudo.


Assobiaram as válvulas da eclusa, alguém estava chegando. A porta interna
abriu-se e entrou a Sacerdotisa Odínica Ingeborg Stefansson, bonita como uma deusa nórdica, acompanhada dos meus tripulantes que buscaram o Engesa.

–Como foi?


–Estava como foi deixado.


–Inge – disse Aldo – faça contato com Valerión – Aqui tem o código da
freqüência secreta dele.

De repente, Inge fixa a vista na janela do alojamento e empalidece.

–Olhem na janela! – grita.


O grito nos assusta a todos, não o esperávamos. Na janela havia um
marciano; e ao ver-se descoberto desapareceu.


De imediato coloquei meu capacete e
as luvas. A mochila já estava nas minhas costas. Entramos os seis na eclusa e não esperamos a mudança de pressão, Aldo abriu a comporta e o ar nos empurrou para fora. Dos alojamentos apareceram pessoas, entre elas, Lúcio Cardelino, pistola em mão; que atirou sem acertar, as balas passaram perto da cabeça do marciano.


O ser
atravessou correndo agilmente a pista de pouso, prestes a desaparecer. Eu e Lúcio fomos atrás. Lúcio não acertou, apesar de ser um grande atirador, acho que isso tem a ver com a gravitação e o ar rarefeito. Aldo gritou nos fones:

–Fechem o escudo!

O marciano bateu no escudo e caiu atordoado, mas levantou-se. Nessa altura
éramos muitos em perseguição. Levou a mão ao cinto e não encontrou a arma, caída perto dele. Tentou pegá-la e Lúcio atirou nela, que saltou vários metros.


Então o ser pulou do chão e tentou pegar a arma por segunda vez. Lúcio empunhou a arma com as duas mãos, fez pontaria e atirou. A pistola marciana explodiu com violência, surpreendendo-nos; não esperávamos por isso. A explosão atirou o marciano por cima do escudo.


O ser levantou-se, aparentemente sem sofrer danos. Lúcio disparou
mais dois tiros, mas as balas bateram no escudo e desintegraram-se. A voz de Aldo ressoou nos meus fones:

–Desliguem o escudo, preparem o Engesa!


–Aldo, peguem o auto-N! – gritei – É mais rápido!

Foi assim que a noite encontrou-me no auto de colchão de ar, perseguindo um
marciano enxerido, que estava nos espionando.

Computador! Suspender diário! Gravar! (1) arquivo(s) copiado(s)

(Do diário pessoal de vôo do Capitão Luis Fagúndez da Polaris)

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Fotos: Homenagem ao filme "Angry Red Planet"(1959).

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