sábado, 28 de novembro de 2009

Como nasce um personagem de romance

Reproduzo aqui um e-mail...

...que receb
i há um ano do autor de "Mundos Paralelos":

(Alguns nomes e endereços de lugares foram retirados ou mudados em respeito à privacidade do autor e da família Cardelino).
M.J.S

"Caro Martin:
Mando-te em anexo o Sermão do Padre Caselli.
Logo do telefonema de hoje, quando dissestes que estavas na reunião de família, resolvi que vou te mandar, se já não te mandei, (Este Dr. Alzheimer...!) uma lista excel de personagens vivos, mortos e por morrer, em ordem de aparição, que fiz para não me perder.

Copiei a ideia de Charles Dickens. Em Londres do século 19 ele não tinha o Excel 2000 da Microsoft do Bill Gates, e por isso mandava fazer uns bonequinhos de barro com um ceramista vizinho, que colocava encima da mesa. Quando o sujeito (ou sujeita) em questão morria, ele quebrava o bonequinho.

No capítulo 14 acontecerão os "terríveis acontecimentos de março", mencionados na foto de arquivo que te mandei dias atrás, e que continuam terríveis, depois, no capítulo 15.

Mas vamos a um pequeno retrospecto do volume um, que tinha separado há dias, quando lembrei que mencionastes que estavas perdido no meio dos personagens.
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Acredites o não - (tenho o original em espanhol, escrito a mão num caderno amarelado, para provar) - este sermão, que incluí na página 133 do capítulo 8, volume 1 Fase 1; do qual anexo 5 páginas (129-133) para apreciação e para que te situes quanto aos personagens (alguns deles estavam desembarcando no Ponto de Apoio, como já te disse (será que eu disse...?) ao telefone); foi escrito por mim talvez em julho de 1969, quando Armstrong desembarcou na Lua.

Lembro porque eu tinha 16 anos e namorava há dois com Letícia Cardelino, da mesma idade; que depois morreu de leucemia em Buenos Aires em 28 de novembro de 1970.
Naquela época não havia cura para isso.
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Passaram-se 21 anos e um dia fui a Buenos Aires a trabalho (Lembras disso?), e às cinco da tarde de 22 de junho de 1991; um dia congelante com menos um grau de temperatura; finalmente achei seu túmulo em La Chacarita, com ajuda de um funcionário.

Se um dia viajas para lá; o panteão familiar dos Cardelino fica a sete ruas do panteão de Gardel, a direita de quem entra pela avenida principal.
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Letícia Helena Cardelino nasceu em Montevideo em 1º de setembro de 1953.
Era a irmâ do meio, entre Horacio, o mais velho, nascido na Itália, e Esther, a mais nova, nascida em Buenos Aires.

Sua família de Trieste, Itália, era dona de uma famosa loja de eletrodomêsticos de Buenos Aires. A filial de Uruguai; a CASA CARDELINO, ainda deve estar no centro de Montevideo, ao lado do EMPORIO DE LOS SANDWICHES, a uma quadra e meia de um dos apartamentos de minha madrinha.
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Sua tia, irmã do seu pai, que gerenciava a filial, morava numa mansão no fino bairro de Carrasco, a duas ou três quadras da praia do mesmo nome. Eu a conheci em abril de 1967. Desde fim de março fazia bico como ajudante de iluminador e meu primo fazia bico de ajudante de sonidista num programa dominical no canal 4 de televisão. Ela participou do programa de calouros, como cantora e no final do programa, a encontrei na cafeteria e conversamos por primeira vez. Descobri que ela tinha permissão para viajar sozinha entre os dois países, e ficava sempre na casa de sua tia por duas ou três semanas.
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Ela tinha planos para o futuro que nunca chegou;
queria ser médica.
Era
uma menina de olhos azuis, magra e alegre; tinha uma bela voz de contralto e usava o cabelo loiríssimo cortado a la garçom, como era a moda de todas aquelas gurias aborrecentes da época, que queriam parecer-se com a modelo inglesa Twiggy, muito famosa naqueles anos.

Ela gostava de
cinema e de música. Foi com ela que assisti a estreia do meu filme francês favorito; Un Homme et una Femme, de Claude Lelouch, com Anouk Aimeé e Jean Louis Trintignant em agosto de 1969, no cinema Eliseo, de Montevideu, hoje igreja do bispo Macedo, ou de qualquer outro desses reverendos.
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Foi Letícia; com sua aparência física, com sua maneira de ser e de falar; que estava presente na minha cabeça ao criar a psicóloga italiana, doutora Regina Lúcia Cardelino, bem-humorada esposa do comandante Boris Jaskavitch; como a melhor amiga e conselheira do sofrido, porém esquentado capitão Aldo.

É Regina, com seu carinho e seu bom humor, que consegue controlar e diluir todo o ódio, toda a raiva e o fanatismo de um homem que teve seus pais cruelmente assassinados pelos dominadores do mundo.
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Regina Cardelino é minha personagem favorita, e só não a casei com Aldo, porque o comandante Boris, o segundo em comando, um brutamontes russo-brasileiro, filho de fazendeiro gaúcho; é mais parecido comigo do que o capitão antártico.
Aldo a vê como uma irmã, a melhor amiga e confidente. Sem falar q
ue ele e a Reverenda Sacerdotisa Odínica Ingeborg, se amam desde que eram crianças; quando tiveram seus pais assassinados pela ditadura; ocasião em que Aldo e seus irmãos; e Inge e seu irmão Leif, foram levados para Antártica e adotados pelo solteirão rabugento Doutor Valerión que os juntou às outras crianças, filhas de líderes ainda vivos na época; entre elas, Regina e seu irmão Lúcio; as gêmeas Blanes e outros.
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Alguns diálogos deles que aparecem por toda a obra; são conversas nunca esquecidas que Letícia e eu tivemos. É a forma que achei para que ela não desapareça, esquecida, no turbilhão dos Mundos Paralelos.
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Eu tinha uma bela foto dela, 4x4, preto e branco, que bati com a minha velha Brownig quadrada, mas se perdeu nas minhas viagens, perto de Hue, no paralelo 17 , Vietnam, em fevereiro de 1976.
(As circunstãncias conheces; estavas lá - obrigado - de novo - por me salvar. Um brinde aos camaradas ausentes! Hoje estão com os deuses!)
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Restou-me como consolo a imagem que anexo, a modo de homenagem à minha saudosa e sempre amada Letícia Helena Cardelino; na figura carinhosa e querida da doutora Regina, desenhada fielmente por nosso amigo André Lima. tal qual eu a descrevi, num fim de semana de agosto de 1994 em minha casa de Gravataí.

Finalmente ela tornou-se uma doutora, heroica e famosa.

Mais do que ela que
ria.
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É isso aí o que tinha hoje para dizer, meu caro Martin. Acho que exagerei, mas se não te contasse, nunca saberias que ela existiu; quem ela foi, que queria ser médica, que gostava de cinema e música, que foi uma moça alegre enquanto viveu e que para mim foi uma pessoa muito importante."
Gabriel Solís.
9 de novembro de 2008
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(Como sempre, Click nas imagens para aumentar - Ah...! Tomei a liberdade de colocar imagens da modelo inglesa para ilustrar sua semelhança com a jovem Letícia -
falecida há hoje exactos 39 anos - de acordo com a descrição feita pelo autor).

Martin Juan Sarracena,
28 de novembro de 2009.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Mundos Paralelos - Capítulo I - 1.6

1.6
–Chegamos, desçam.
Caminharam por um corredor cheio de portas, em que homens e mulheres iam e vinham atarefados. Ao final entraram num elevador.
–Subimos ou descemos? – perguntou Mara.
–Subimos.
Segundos depois, abriram-se as portas e passaram a um hangar de vinte e cinco metros de altura; setenta de largura e cem de comprimento, no qual estava sendo introduzida, puxada por um trator, vinda de um local ainda maior, a nave Antílope; de cor prata brilhante, com quarenta e oito metros de comprimento, vinte e dois de envergadura, dezessete de altura e 5,40m de diâmetro.
–É belíssima – admirou-se Inge.
–Como podem ver tem um trem de pouso de dez rodas de dois metros de diâmetro repartidas em três jogos. Cinco motores no tubo principal, um em cada um dos seus três tubos laterais, que estão quase grudados à fuselagem para dar maior estabilidade ao conjunto quando se voa na atmosfera. Como podem ver também tem quatro motores de freio na proa e quarenta motores de manobra. O que acham?
–Fabulosa. –disseram a coro as gêmeas.
–Foi projetada para ar, água e espaço – garantiu Aldo – não poupamos aço nem vitrotitânio ligados em gravitação zero.
–Tem semelhança com a réplica da Atlantis, do museu – disse Mara – mas esta é mais cilíndrica, mais rústica, tipo avião a jato do século passado...
–Não se engane. Clássico por fora, mas por dentro... – replicou Aldo, feliz por ter finalmente as garotas em Antártica.
–Vamos vê-lo por dentro? – perguntou Regina.
–Sim, subam.
Uma escadinha flexível surgia embaixo da eclusa de entrada à bombordo da proa. As garotas subiram na frente. Uma vez dentro acenderam-se luzes violeta.
–Instalamos raios germicidas que incidem sobre quem entra ou sai. Como não estamos no espaço são de pequena intensidade. Uma vez vestidos com roupa espacial serão de cor vermelha para destruir qualquer microorganismo letal.
–Subimos à ponte? – perguntou Mara.
–Sim – Aldo acionou um escotilhão do teto – Subam!
Na ponte, Aldo ocupou a poltrona de comando, Mara sentou na do co-piloto e as garotas repartiram-se as outras. Havia dez poltronas. Cada uma completamente equipada, com terminais de ar e comunicações.
Através do pára-brisa de vitroplast entrava a luz do hangar, iluminando a ponte pequena e funcional, onde dez pessoas podiam trabalhar sem saírem das poltronas e se preciso fosse, levantar-se e descer pelo escotilhão para sair ao exterior ou passar às dependências interiores pela porta da parede de popa. As garotas admiravam-se de estar numa nave que só conheceram no papel. Aldo mostrou as telas de comunicação, computador, retrovisor, pontaria...
–Pontaria?
–Sim, Mara – Aldo levantou a cobertura de um pequeno painel à sua esquerda e mostrou os controles ocultos – Estes botões disparam os torpedos nucleares. Na proa há quatro tubos. O estoque será de quarenta unidades e cem no contêiner.
–Claro, não sabemos o que vamos encontrar... – disse Regina.
–Não só por isso; há naves inimigas no espaço.
–Já estão nos esperando lá em cima, os malditos?
–O inimigo lançou a Challenger II para espionar. Quando fizemos o primeiro teste, desesperaram-se, não puderam vê-la direito; não tinham idéia de que era tão veloz. Não sabem que nada queremos deles desta vez. Nosso objetivo é outro.
–Não vamos atacá-los? – perguntou Inge.
–Não de propósito. Podemos usar os canhões laser para destruir um satélite deles, só por pirraça, para assustá-los, se for preciso, é claro.
–Além das armas, que outra novidade há? –quis saber Inge.
–O gerador de gravitação negativa, que pegamos dos alienígenas. Reduz oitenta por cento do peso da nave; facilitando a decolagem e aceleração. Além disso, gera um escudo eletromagnético ao redor, que pode ser dirigido. Isso nos deixa quase invulneráveis. Consome muita energia, mas funciona bem.
–Quê velocidade desenvolve no espaço?
–Ainda não sabemos, Inge. O Dr. Valerión disse que atingirá até 150.000 kph.
Mas a velocidade de cruzeiro ideal para a viagem deverá ser de apenas 100.000 kph.
–E o consumo de energia?
–Possui dois depósitos: o principal de sessenta e oito mil litros com o que dá para ir e voltar, e o secundário de cento trinta e seis mil litros. Mas este irá cheio de material imprescindível, assim como os dois compartimentos de carga de noventa e um metros cúbicos cada. Isso sem contar que rebocaremos um container de dez metros de diâmetro por sessenta de comprimento. Para isso, precisaremos de dois foguetes auxiliares. Para um observador distante, pareceremos um shuttle do inimigo.
–Vamos ver o resto – Interrompeu Bárbara com veemência – haverá tempo para conversar na viagem! Agora estou curiosa.
–Certo, querida – sorriu Aldo, abrindo à porta de popa – entrem meninas.
Entraram uma a uma, no corredor iluminado com lâmpadas solares.
–A primeira porta de estibordo é o meu camarote com dois beliches duplos, banheiro, guarda-roupas, armário, escritório, terminal do sistema, biblioteca, etc.
–Encantador. – suspirou Inge.
–A primeira porta de bombordo é a sala de circuitos onde está o painel de controle elétrico e eletrônico da nave e o computador principal. Numa pequena repartição da mesma temos a sala de comunicações.
–Formidável – disse Regina.
–A segunda à estibordo é o banheiro principal. Na frente à bombordo a cozinha, para processar comida concentrada com o que encontrarmos por aí que seja comível e esquentar o que levamos. Além das pílulas e ração padrão; que vocês sabem que é uma droga; há comida desidratada, congelada, conservas, carne, leite, produtos não perecíveis, farinha, açúcar, arroz. Isso no container. Na nave apenas pílulas que ocupam menos espaço e podem salvar nossas vidas, se der problema com o reboque.
–E as outras portas? – perguntou Regina, sempre curiosa.
–Terceiras à bombordo e estibordo: camarotes com quatro beliches duplos; armários e guarda-roupas. Quarta a estibordo: enfermaria; quarta a bombordo: arsenal de mão; pistolas, fuzis, metralhadoras e outros brinquedos igualmente letais. Estamos preparados para tudo, garotas. Ao final do corredor o depósito superior e embaixo o inferior. Cada um tem 91 metros cúbicos. Lá atrás estão os depósitos de combustível, e mais atrás as máquinas.
–Estou desejando partir – suspirou Inge – os deuses estão impacientes.
–Já falta pouco – disse Aldo.
*******

(continua)
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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Mundos Paralelos - Capítulo I - 1.5

1.5

Um veículo reboque saiu do hangar e os funcionários engancharam o avião e o puxaram para dentro.

As portas externas fecharam-se e o barulho do vento e o frio ficaram do lado de fora.

Uma porta menor abriu-se do lado de dentro e entrou um jovem musculoso, não muito alto; de cabelo preto e olhos castanhos, ao tempo em que Mara desembarcava antes das outras.


–Mara! Quê saudade!
–Aldo! Você está pálido, querido – disse ela beijando-o.
–Você está bem bronzeada. O Brasil lhe fez bem.

Inge aproximou-se sorridente.
–Aldo, amor!
–Você está bonita como sempre, minha Reverenda!
Beijaram-se e ela disse, olhando-o de cima abaixo:
–Mara tem razão, você está pálido demais.
–Os recém chegados sempre notam – confirmou Aldo – Aqui nos subterrâneos não temos mais sol do que o das lâmpadas solares.
–Deveriam usá-las, querido – disse Regina.
–Estamos trabalhando no projeto, querida. Não sobra tempo para descanso.
Regina beijou seu amigo, que acariciou seu cabelo loiro cortado a la garçom. Todos eles foram criados juntos desde os tempos da escola, como uma família.
–Saudades, muitas saudades, querido.
–Eu também.
As gémeas abraçaram-no com carinho.
–Sejam bem vindas, meninas – disse ele, recompondo-se – quero mostrar em que ocupamos nosso tempo. Venham!
Passaram a um amplo túnel, onde esperava um veículo elétrico. Embarcaram e partiram, cruzando com veículos similares que circulavam velozmente, até chegarem a
uma bifurcação onde havia dois letreiros em espanhol:


CIUDAD ANTÁRTICA e ASTROPUERTO.



Aldo entrou no segundo túnel. Regina disse:
–Já sei, vamos ver a nave.
–As naves, Regina – replicou ele.
–Quantas há? – perguntou Inge.
–Dez. Mas só uma está equipada.
–Foram testadas? – perguntou Mara.
–Sim. Não poderiam ser melhores.
–Quando decolaremos?
–Em vinte de março. Já começamos a contagem regressiva.
A exclamação em coro das garotas foi ofuscada pelo barulho dos freios.
*******


(continua)
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sexta-feira, 13 de novembro de 2009

domingo, 8 de novembro de 2009

Off topic - Ferrari em París

DIRIGIR UMA FERRARI
DE MADRUGADA
EM PARIS,

(Vale a pena ver por ser Paris, por ser uma Ferrari e por ser proibido).

Em agosto de 1978, o cineasta francês Claude Lelouch montou uma câmera giroscopicamente estabilizada na frente de uma Ferrari 275 GTB e convidou um amigo, piloto profissional de Formula 1, para fazer um trajeto no coração de Paris à maior velocidade que ele pudesse.
A hora seria logo que o dia clareasse.
O filme só dava para 10 minutos e o trajeto era de Porte Dauphine, através do Louvre até a basílica de Sacre Coeur.
Lelouch não conseguiu permissão para interditar nenhuma rua no trajeto.
O piloto completou o circuito em 9 minutos, chegando a 324 km por hora em certos momentos.
O filme mostra-o furando sinais vermelhos, quase atropelando pedestres e entrando em ruas de mão única na contra-mão.
Quando mostrou o filme em publico pela primeira vez, Lelouch foi preso.
Ele nunca revelou o nome do piloto e o filme foi proibido, passando a circular só no underground.
Se você já viu, veja de novo, vale a pena.
Se você não viu ainda o clássico, prenda a respiração, ligue o som e clique aqui.

...Antes que o tirem do youtube de novo...!

(Click na imagem para aumentar.)

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Mundos Paralelos - Capítulo I - 1.3

1.3

O avião tinha o vento por bombordo, o que facilitaria as coisas ao aterrissar, pois assim que avistaram à esquerda os Montes Pensacola, viraram naquela direção, para voar com o vento de frente à base de Cidade Antártica, situada a 300 km da Bahia de Halley, na parte da Terra da Rainha Maud que dá ao Mar de Weddell.
*******.





Foi aí que começou este relato. O avião desceu a 100 metros. Inge Stefansson viu à proa, os faróis de pista:


–Ali, Mara.
–Sim, já vi. Verifiquem os cintos.









Mara baixou o trem de pouso. A neve fora nivelada recentemente. O avião pousou.
A ambos lados da pista erigiam-se construções.




























(continua)
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