sábado, 8 de abril de 2017

A ESTRELA - Arthur C. Clarke

Estamos a 3.000 anos-luz do Vaticano.
Arthur C. Clarke
1917-2008

Um dia, acreditei que o espaço não tinha poderes sobre a fé, assim como acreditava que os céus proclamariam a glória da obra de deus. Agora, já vi essa obra e minha fé se encontra seriamente abalada.
Olho para o crucifixo, suspenso na parede da cabine, acima do computador Mark VI, e pela primeira vez em minha vida me pergunto se não será um símbolo vazio.

Ainda não contei a ninguém, mas a verdade não pode ser escondida.
Os fatos estão lá para todos lerem, registrados em quilômetros sem conta de fita magnética e nos milhares de fotografias que transportamos de volta à terra. Outros cientistas poderão interpretá-las tão facilmente quanto eu, e não serei eu quem vai compactuar em ocultar a verdade, fato quase sempre responsável pela má fama da nossa ordem nos velhos dias.

A tripulação já se encontra suficientemente deprimida e não sei como eles aceitarão esta ironia final.
Poucos dentre eles possuem qualquer tipo de fé religiosa e, no entanto, não encontrarão prazer em usar essa arma final em sua campanha contra mim. Aquela guerrinha particular, bem-humorada, mas de fundamental importância, que transcorreu durante todo o caminho desde a terra.

Eles achavam divertido ter um jesuíta como astrofísico-chefe: o Dr. Chandler, por exemplo, nunca se acostumou com isso (por que será que os médicos são tão ateus?).
Algumas vezes ele me encontrava no convés de observação, onde as luzes eram sempre reduzidas, de modo a que as estrelas pudessem brilhar em toda a sua glória. Ficava ao meu lado na penumbra, olhando através da grande janela oval para os céus que se moviam lentamente à nossa volta, enquanto a nave girava, com a rotação residual, que nunca nos incomodaríamos em corrigir.

- Bem, padre – dizia ele, afinal -, parece prolongar-se para sempre, não?

Talvez alguma coisa o tenha criado.Mas como pode acreditar que essa alguma coisa tenha um interesse especial por nós e nosso mundinho miserável, nunca poderei entender.
E a discussão começava enquanto, lá fora, estrelas e nebulosas giravam em seus arcos eternos e silenciosos, além do plástico claro e sem falhas da vigia de observação. Acredito que, em grande parte, era a aparente incongruência de minha posição que fazia a tripulação achar a coisa tão divertida.

Seria inútil eu chamar a atenção para os meus três artigos publicados no jornal de astrofísica ou os cinco no noticias mensais da real sociedade astronômica. Lembrava-lhes que a minha ordem era famosa há muito tempo por seus trabalhos científicos. Nós podemos ser poucos agora, mas desde o século XVIII temos feito contribuições à astronomia e à geografia que parecem fora de proporção com o número de nossos quadros. Será que meu relatório sobre a nebulosa Fênix vai pôr fim a nossos mil anos de história? Porá fim, receio, a muito mais que isso.

Não sei quem deu esse nome à nebulosa, que me parece muito inadequado. Se contém alguma profecia, é coisa que não será verificada durante vários bilhões de anos.
Mesmo a palavra nebulosa é um engano: trata-se de um objeto muito menor do que aquelas estupendas nuvens de poeira – a matéria-prima das estrelas ainda por nascer – que se espalham ao longo da Via Láctea. Na escala cósmica, de fato, a nebulosa Fênix é algo pequeno – uma tênue concha de gás envolvendo uma única estrela… Ou o que sobrou de uma estrela…


O retrato de Loyola feito por Rubens parece zombar de mim, suspenso ali, acima dos registros do espectrofotômetro.

O que tu terias feito, padre, com este conhecimento que veio às minhas mãos, tão longe do pequeno mundo que foi todo o universo que conheceste?

Teria tua fé se erguido ante o desafio onde a minha falhou?

Teu olhar se perde na distância, padre, mas eu viajei por uma distância além de qualquer uma que pudeste ter imaginado ao fundar a nossa ordem, há mil anos.


Nenhuma outra nave de pesquisa esteve tão longe da terra.
Encontramo-nos nas fronteiras do universo explorado. Partimos para encontrar a nebulosa Fênix, tivemos sucesso e agora voltamos com o peso de nossos conhecimentos.
Quisera eu poder erguer esse peso dos meus ombros, mas é em vão que te chamo através dos séculos e anos-luz que nos separam.

No livro que seguras, as palavras são nítidas: “Ad maiorem dei gloriam”, diz a mensagem, mas é uma mensagem em que não mais posso crer. Poderias ainda acreditar nela se pudesses ver o que encontramos?

Nós sabíamos, é claro, o que era a nebulosa Fênix.Apenas em nossa galáxia, a cada ano, mais de 100 estrelas explodem, queimando durante algumas horas ou dias com milhares de vezes o seu brilho normal antes de mergulharem na morte e na obscuridade. Essas são as novas normais, desastres comuns no universo. Já gravei espectrogramas e curvas de luminosidade de dúzias delas, desde que comecei a trabalhar no observatório lunar.

Mas, três ou quatro vezes, a cada mil anos ocorre alguma coisa, ao lado da qual até mesmo uma nova empalidece na total insignificância. Quando uma estrela se torna supernova, ela pode brilhar brevemente mais que todos os sóis reunidos na galáxia. Os astrônomos chineses observaram isso acontecer no ano 1054 D.C. Sem conhecerem a razão do que viam. Cinco séculos depois, em 1572, uma supernova explodiu na constelação de Cassiopéia, tão brilhante que podia ser vista à luz do dia. E houve mais três durante os mil anos que se passaram desde então.

Nossa missão era visitar o remanescente de semelhante catástrofe, tentando reconstruir os eventos que haviam conduzido a ela para, se possível, aprender sua causa. Entramos lentamente através das conchas concêntricas de gás que haviam sido lançadas para fora há seis mil anos e ainda se expandiam. Ainda estavam imensamente quentes, irradiando mesmo agora numa violenta luz violeta, mas eram demasiado tênues para nos causar qualquer dano. Quando uma estrela explode, suas camadas externas são impulsionadas para fora com tamanha velocidade que escapam completamente ao seu campo gravitacional.

Agora formavam essa concha oca, grande o suficiente para envolver mil sistemas solares.
Em seu centro queimava o objeto pequeno e fantástico em que a estrela se tornara. Uma anã branca, menor do que a Terra, e no entanto pesando um milhão de vezes mais. As conchas de gás luminoso nos envolviam banindo a noite normal do espaço interestelar. Voávamos para o centro de uma bomba cósmica que detonara há milênios, e cujos fragmentos incandescentes ainda se expandiam.

A imensa escala da explosão e o fato de que os resíduos já cobriam um volume de espaço com muitos bilhões de quilômetros de diâmetro roubavam à cena qualquer movimento visível. Levaria décadas para que a visão pudesse discernir qualquer movimento nesses tortuosos filamentos e redemoinhos de gás. E, no entanto, o sentimento de uma expansão turbulenta era irresistível. Havíamos verificado nossa direção básica horas atrás e agora flutuávamos lentamente rumo à pequenina e fogosa estrela à nossa frente.
Ela já fora um sol como o nosso, mas consumira em algumas horas toda a energia que a teria mantido brilhando por um milhão de anos. Agora se tornara avarenta e encolhida, reunindo seus recursos como se tentasse compensar os excessos de uma juventude perdulária.

Ninguém esperava seriamente que pudéssemos encontrar planetas.

Se houvesse existido algum antes da explosão, teria sido cozido em sopros de vapor e sua substância dissolvida em meio aos resíduos da estrela. Ainda assim fizemos a busca automática, como sempre fazemos ao nos aproximarmos de um sol desconhecido.

Dentro em pouco localizamos um mundo pequeno, circundando a estrela a imensa distância. Ele devia ter sido o Plutão desse desaparecido sistema solar, orbitando nas fronteiras da noite. Demasiado afastado do sol central para jamais ter conhecido a vida, sua distância salvara-o do destino que consumira todos os seus companheiros.
A passagem do fogo queimara suas rochas, dissolvendo o manto de gás congelado que devia cobri-lo nos dias anteriores ao desastre.

Nós pousamos e descobrimos a cripta.
Seus construtores se haviam assegurado de que isso ocorreria. O marco monolítico erguido acima da entrada não passava agora de um toco fundido, mas mesmo nossas fotos de longa distância já nos revelavam existir ali o trabalho de uma inteligência.

Pouco depois detectamos o padrão de radioatividade, amplo como um continente, que fora embutido na rocha. Mesmo que o pilar acima da cripta tivesse sido destruído, essa energia teria permanecido, um eterno e irremovível farol acenando para as estrelas.
Nossa nave mergulhou como uma flecha em direção a esse gigantesco alvo.

O pilar devia ter uma altura de 1,5 km quando foi construído.
Agora parecia uma vela que se derretera até formar um monte de cera. Levamos uma semana para perfurar a rocha fundida, já que não tínhamos ferramentas adequadas para essa tarefa. Éramos astrônomos, não arqueólogos, mas podíamos improvisar.
Nosso propósito original fora esquecido: esse monumento solitário, erguido com tamanho esforço à maior distância possível do sol condenado, só poderia ter um significado. Uma civilização que tinha consciência de seu fim próximo fizera ali seu último apelo à imortalidade.

Examinar todos os tesouros depositados na cripta será trabalho para gerações.
Eles tiveram muito tempo para se preparar, já que seu sol deve ter dado os primeiros avisos muitos anos antes da detonação final. Tudo o que desejavam preservar, todos os frutos de seu gênio, eles depositaram ali, naquele mundo distante, dias antes do fim, na esperança de que alguma outra raça os encontrasse, para que não fossem inteiramente esquecidos.

Teríamos nos portado desse modo?
Ou teríamos nos perdido em nossa própria autocomiseração, incapazes de pensar num futuro que nunca poderíamos ver ou compartilhar?
Se ao menos eles tivessem tido um pouco mais de tempo… podiam viajar livremente entre os planetas de seu próprio sol, mas ainda não haviam aprendido a cruzar os golfos interestelares, e o sistema solar mais próximo encontrava-se a 100 anos-luz de distância. Mas mesmo que possuíssem o segredo do impulso transfinito, não mais que uns poucos milhões poderiam ter sido salvos. Talvez tenha sido melhor assim.

Mesmo que eles não fossem tão perturbadoramente humanos, como revelam suas esculturas, não poderíamos deixar de admirá-los e lamentar seu destino.
Eles deixaram milhares de registros visuais, juntamente com minuciosas máquinas para projetá-los. Havia instruções pictóricas, de modo que não fosse difícil aprender a sua linguagem escrita.
Temos examinado muitas dessas gravações, trazendo de volta à vida, pela primeira vez em seis mil anos, todo o calor e a beleza de uma civilização que, em muitos aspectos, deve ter sido bem superior à nossa.
Talvez eles tenham deixado apenas seu lado melhor, mas ninguém poderá condená-los por isso.
Seus mundos, contudo, eram adoráveis e suas cidades, erguidas com uma graça que iguala qualquer coisa já feita pelo homem. Nós os observamos no trabalho e nas diversões, ouvimos sua linguagem musical soando através dos séculos.
E uma cena permanece ante meus olhos.
Um grupo de crianças numa praia de estranha areia azul, brincando nas ondas como as crianças brincam na terra. Há uma fileira de árvores exóticas, que lembram chicotes, ao longo da praia, e algum animal muito grande aparece, atravessando os baixios, sem atrair atenção.

Mergulhando no mar, ainda cálido e generoso, vemos o sol que logo se tornaria traidor, apagando toda essa felicidade inocente. Talvez se não estivéssemos tão longe de casa e portanto tão vulneráveis à solidão, não ficássemos tão profundamente comovidos.
Muitos de nós já observaram as ruínas de antigas civilizações em outros mundos, mas elas nunca nos afetaram tão profundamente. Essa tragédia era única. Uma coisa é uma raça falhar e morrer, como nações e culturas já o fizeram na terra.
Mas ser destruída tão completamente, em pleno ápice de seu desenvolvimento, sem deixar qualquer sobrevivente – como tal coisa poderia conciliar-se com a misericórdia divina?

Meus colegas já perguntaram isso e eu dei as respostas que pude.
Talvez tivesses feito melhor, padre Loyola, mas nada encontrei no “exercitia spiritualia” que me ajudasse nessa tarefa. Eles não eram gente má: não sei que deuses adoravam, se é que adoravam algum.
Mas tenho olhado para eles através do abismo dos séculos e vi a beleza que preservaram em seu último esforço sendo de novo trazida à luz de seu sol encolhido.
Eles poderiam ter-nos ensinado tanto.
Por que foram destruídos?

Conheço as respostas que meus colegas darão quando estiverem de volta à Terra.
Dirão que o universo não possui propósito ou plano, e que de vez que 100 sóis explodem, a cada ano, em nossa galáxia, neste exato momento alguma raça está morrendo nas profundezas do espaço.
Se essa raça fez o bem ou o mal durante sua existência, não faz qualquer diferença no final.
Não há justiça divina porque não existe deus. É claro que o que vimos não prova nada disso.
Qualquer um que assim afirme está sendo influenciado pela emoção, não pela lógica.

Deus não necessita justificar suas ações perante o homem.
Ele, que construiu o universo, pode destruí-lo quando quiser. Constitui arrogância – perigosamente próxima da blasfêmia – pensar que podemos dizer o que ele pode ou não fazer. Isso eu teria aceitado, não importando quão dolorosa fosse a perspectiva de mundos inteiros, juntamente com seus povos, sendo lançados em fornalhas. Mas chega um ponto em que até mesmo a mais profunda fé pode vacilar, e agora, quando olho para os cálculos colocados diante de mim, percebo que afinal cheguei a esse ponto.

Não podíamos dizer, antes de alcançar à nebulosa, há quanto tempo ocorrera a explosão. Agora, partindo da evidência astronômica e dos registros nas rochas daquele único planeta sobrevivente, fui capaz de datá-la com precisão. E sei em que ano a luz desse incêndio colossal chegou à Terra.

Sei o quanto essa supernova, cujo cadáver agora se apaga atrás de nossa nave em aceleração, deve ter brilhado nos céus da terra. Sei como deve ter fulgurado; baixa sobre o horizonte do leste, antes do nascer do sol, como um farol na alvorada oriental. Não pode haver mais dúvida.
O mistério ancestral foi finalmente solucionado.

E, no entanto, ó Deus... Havia tantas estrelas que poderias ter usado!

Qual a necessidade de lançar essas pessoas ao fogo para que o símbolo de sua morte pudesse brilhar acima de Belém?


FIM

Homenagem ao Grande Mestre
Arthur C. Clarke,
No ano do seu centenário. 

domingo, 1 de janeiro de 2017

Hoje é o dia 01/01/17

ou se preferirem:

170101
(data antártica)

É o ano do GALO!


Pior... é o ano do Galo de FOGO...!!

E também é o ano...

5778 da Era Judaica;

2793 da Era Grega;



2770 da Era Romana;


2676 da Era Japonesa;


2017 da Era Cristã;

1437 da Era Islâmica;


0525 da Era Americana;


0517 da Era Brasileira;


0204 da Era Wagneriana;


0173 da Era Nietzscheana;


0128 da Era... da Era... AH... Esqueci...!
(Nota mental: Lembrar e atualizar).



0072 da Era Atômica;


0064 da Era Sarracênica;


0060 da Era Espacial;


0051 da Era Trekker...!!



0049 da Era dos Mundos Paralelos



e o ano 0048 da Era Lunar.



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Feliz 2017!

 Vida Longa e Próspera...!

(Já que o mundo não acabou
e uma pedra do céu não fez um Impacto Profundo)

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sábado, 10 de dezembro de 2016

Hoje faz seis anos que perdemos um amigo.

Há seis anos,

em 10 de dezembro de 2010,
às 6 da manhã,
faleceu em Gravataí,
Rio Grande do Sul,
Brasil,
o Grande Ufologista
português açoriano



meu camarada desde 1989.
Era um homem simples,
de vasta erudição.


JOSÉ VICTOR SOARES
 (In Memoriam)

Natural dos Açores,
diretor da
Irmandade Cósmica da Cruz do Sul (ICCS)
de Gravataí, RS,
fundada no dia
20 de agosto de 1967,
sendo portanto
uma das mais antigas do país.

É responsável por mais de
que realizou,
mais de
de suas pesquisas.
Ele agrupou diversos
relatos e fotos

O Jornal
Correio de Gravataí
publicou
em 11/12/2010.
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Salve Vitor!
Que os Deuses o tenham!
A Luta Continua!
Ao final Venceremos!
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A verdade está lá fora...!

Martin Juan Sarracena

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Morreu há 46 anos e renasceu como personagem de romance.

Reedito um e-mail...
que recebi em 09/11/2008 do autor de "Mundos Paralelos":
Até porque sempre é bom lembrar.
(Alguns nomes e endereços de lugares foram retirados ou mudados em respeito à privacidade do autor e da família Cardelino).
M.J.S
"Caro Martin:
Mando-te em anexo o Sermão do Padre Caselli.
Logo do telefonema de hoje, quando dissestes que estavas na reunião de família, resolvi que vou te mandar, se já não te mandei, (Este Dr. Alzheimer...!) uma lista excel de personagens vivos, mortos e por morrer, em ordem de aparição, que fiz para não me perder.

Copiei a ideia de Charles Dickens. Em Londres do século 19 ele não tinha o Excel 2000 da Microsoft do Bill Gates, e por isso mandava fazer uns bonequinhos de barro com um ceramista vizinho, que colocava encima da mesa. Quando o sujeito (ou sujeita) em questão morria, ele quebrava o bonequinho.

No capítulo 14 acontecerão os "terríveis acontecimentos de março", mencionados na foto de arquivo que te mandei dias atrás, e que continuam terríveis, depois, no capítulo 15.

Mas vamos a um pequeno retrospecto do volume um, que tinha separado há dias, quando lembrei que mencionastes que estavas perdido no meio dos personagens.
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Acredites o não - (tenho o original em espanhol, escrito a mão num caderno amarelado, para provar) - este sermão, que incluí na página 133 do capítulo 8, volume 1 Fase 1; do qual anexo 5 páginas (129-133) para apreciação e para que te situes quanto aos personagens (alguns deles estavam desembarcando no Ponto de Apoio, como já te disse (será que eu disse...?) ao telefone); foi escrito por mim talvez em julho de 1969, quando Armstrong desembarcou na Lua.

Lembro porque eu tinha 16 anos e namorava há dois com Letícia Cardelino, da mesma idade; que depois morreu de leucemia em Buenos Aires em 28 de novembro de 1970.Naquela época não havia cura para isso.
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Passaram-se 21 anos e um dia fui a Buenos Aires a trabalho (Lembras disso?), e às cinco da tarde de 22 de junho de 1991; um dia congelante com menos um grau de temperatura; finalmente achei seu túmulo em La Chacarita, com ajuda de um funcionário.

Se um dia viajas para lá; o panteão familiar dos Cardelino fica a sete ruas do panteão de Gardel, a direita de quem entra pela avenida principal.
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Letícia Helena Cardelino nasceu em Montevideo em 1º de setembro de 1953.
Era a irmâ do meio, entre Horacio, o mais velho, nascido na Itália, e Esther, a mais nova, nascida em Buenos Aires.

Sua família de Trieste, Itália, era dona de uma famosa loja de eletrodomêsticos de Buenos Aires. A filial de Uruguai; a CASA CARDELINO, ainda deve estar no centro de Montevideo, ao lado do EMPORIO DE LOS SANDWICHES, a uma quadra e meia de um dos apartamentos de minha madrinha.
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Sua tia, irmã do seu pai, que gerenciava a filial, morava numa mansão no fino bairro de Carrasco, a duas ou três quadras da praia do mesmo nome. Eu a conheci em abril de 1967. Desde fim de março fazia bico como ajudante de iluminador e meu primo fazia bico de ajudante de sonidista num programa dominical no canal 4 de televisão. Ela participou do programa de calouros, como cantora e no final do programa, a encontrei na cafeteria e conversamos por primeira vez. Descobri que ela tinha permissão para viajar sozinha entre os dois países, e ficava sempre na casa de sua tia por duas ou três semanas.
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Ela tinha planos para o futuro que nunca chegou;
queria ser médica.
Era
uma menina de olhos azuis, magra e alegre; tinha uma bela voz de contralto e usava o cabelo loiríssimo cortado a la garçom, como era a moda de todas aquelas gurias aborrecentes da época, que queriam parecer-se com a modelo inglesa Twiggy, muito famosa naqueles anos.

Ela gostava de
cinema e de música. Foi com ela que assisti a estreia do meu filme francês favorito; Un Homme et una Femme, de Claude Lelouch, com Anouk Aimeé e Jean Louis Trintignant em agosto de 1969, no cinema Eliseo, de Montevideu, hoje igreja do bispo Macedo, ou de qualquer outro desses reverendos.
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Foi Letícia; com sua aparência física, com sua maneira de ser e de falar; que estava presente na minha cabeça ao criar a psicóloga italiana, doutora Regina Lúcia Cardelino, bem-humorada esposa do comandante Boris Jaskavitch; como a melhor amiga e conselheira do sofrido, porém esquentado capitão Aldo.

É Regina, com seu carinho e seu bom humor, que consegue controlar e diluir todo o ódio, toda a raiva e o fanatismo de um homem que teve seus pais cruelmente assassinados pelos dominadores do mundo.
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Regina Cardelino é minha personagem favorita, e só não a casei com Aldo, porque o comandante Boris, o segundo em comando, um brutamontes russo-brasileiro, filho de fazendeiro gaúcho; é mais parecido comigo do que o capitão antártico.
Aldo a vê como uma irmã, a melhor amiga e confidente. Sem falar q
ue ele e a Reverenda Sacerdotisa Odínica Ingeborg, se amam desde que eram crianças; quando tiveram seus pais assassinados pela ditadura; ocasião em que Aldo e seus irmãos; e Inge e seu irmão Leif, foram levados para Antártica e adotados pelo solteirão rabugento Doutor Valerión que os juntou às outras crianças, filhas de líderes ainda vivos na época; entre elas, Regina e seu irmão Lúcio; as gêmeas Blanes e outros.
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Alguns diálogos deles que aparecem por toda a obra; são conversas nunca esquecidas que Letícia e eu tivemos. É a forma que achei para que ela não desapareça, esquecida, no turbilhão dos Mundos Paralelos.
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Eu tinha uma bela foto dela, 4x4, preto e branco, que bati com a minha velha Brownig quadrada, mas o falecido tenente Nguyen Lao Tyu, a usou para acender um charuto que depois apagou nas minhas costelas em fevereiro de 1976, uma ou duas semanas antes que o o degolasses como um porco, igual que o Pearl; depois de fuzilar seus homens, perto de Hue, no paralelo 17, Vietnam. (Obrigado - de novo - por me salvar. Um brinde aos camaradas ausentes! Hoje estão com os deuses!)
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Restou-me como consolo a imagem que anexo, a modo de homenagem à minha saudosa e sempre amada Letícia Helena Cardelino; na figura carinhosa e querida da doutora Regina, desenhada fielmente por nosso amigo André Lima. tal qual eu a descrevi, num fim de semana de agosto de 1994 em minha casa de Gravataí.

Finalmente ela tornou-se uma doutora, heroica e famosa.

Mais do que ela que
ria.
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É isso aí o que tinha hoje para dizer, meu caro Martin. Acho que exagerei, mas se não te contasse, nunca saberias que ela existiu; quem ela foi, que queria ser médica, que gostava de cinema e música, que foi uma moça alegre enquanto viveu e que para mim foi uma pessoa muito importante."

Gabriel Solís.
9 de novembro de 2008
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(Como sempre, Click nas imagens para aumentar - Ah...! Tomei a liberdade de colocar imagens da modelo inglesa para ilustrar sua semelhança com a jovem Letícia -
falecida há hoje exatos 46 anos - de acordo com a descrição feita pelo autor).


Martin Juan Sarracena,28 de novembro de 2016.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

15 de Novembro

O Blog Sarracênico


(como sempre digo; odeio me repetir mas neste caso...)

faz uma patriótica pausa nos

Mundos Paralelos


e

Fantásticos



para comemorar

a data da

Proclamação da República.



SALVE O BRASIL...!

Apesar de tudo.

Eu já disse tudo isso antes?
Tenho uma sensação de déja vú...

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

WALPURGISNACHT 2016

Feliz dia das bruxas!




Hoje é o dia em que
nos países do norte 
as bruxas andam soltas,
como estas::



Mas...
eu prefiro as adoráveis bruxas
da minissérie em quadrinhos

(como todo mundo está cansado de saber,
sou fã de quadrinhos)
intitulada: "Bruxaria":


As três deusas que eram uma:

Hecatae ou Hecate,

A Velha...
  
a Mãe...

 e a Donzela,

Deusas da velha religião; a única
não permitida no vasto Império Romano:
a religião das mulheres; uma 
religião bem antiga.
A bruxaria foi considerada
uma das primeiras religiões do mundo...





("As bruxas sempre trabalham em três")


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Como sempre, clik para aumentar imagens
e para acessar os links.
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