sexta-feira, 2 de março de 2012

Mundos Paralelos - Capítulo 8-8.4

8-8.4
10 de agosto de 2013. Ao amanhecer.

A Antílope pousou na pista do Ponto de Apoio.
Aldo, Inge e Regina vão para o alojamento do primeiro. Ao seu encontro, aparecem Marcos e Bárbara.


–Por fim! – disse ela – Estávamos preocupados!

–Nem imagina – disse Aldo – revolucionaremos a história com o que sabemos!

Entraram e tiraram os capacetes. Aldo colocou um envoltório cheio de livros e pastas com folhas soltas sobre a mesa.

–Marcos, aqui há segredos técnicos das células de energia que eles usam até para armas, um manual de antigravitação, um tratado de história... Regina e eu somos quase doutores, agora. Tomarei banho e vamos a trabalhar em cima disso.

–Excelente caça, Aldo!

Dez minutos depois, Aldo e as garotas apareceram de cabelo úmido, trajando camisetas, calções e calçado de lona.

–Vejo que está interessado, irmão – disse Aldo.

–Não consigo decifrar a escrita. Preciso de mais horas na máquina...

–Regina lê isso de trás para frente e vice-versa. Com isto podemos passar à segunda etapa do plano de operações; a construção de uma nave maior. Quando tiver os técnicos da INDEVAL aqui, será possível desenvolver o projeto... Aliás, eles estão demorando muito. Devemos entrar em contato, Marcos.

*******.

20 de agosto de 2013.

Enquanto as naves eram descarregadas, Aldo, sentado à mesa de campanha ao ar livre, manipulava o computador com destreza, apesar das luvas.

Fiscalizava uma por uma as fichas de cadastro e o genoma dos recém chegados. Os tubos das naves ainda estavam quentes, soltando vapores azuis no frio ar do amanhecer.

Cento e cinqüenta cientistas, suas cem esposas e trinta meninos e meninas, caminhavam com cuidado na gravitação baixa, enfiados em trajes espaciais brilhantes de novos, aos que ainda não estavam habituados.

Depois foram as cinqüenta esposas de astronautas e igual número de filhos. Depois irmãos e irmãs de astronautas, quinze mulheres e cinco homens. Por último, quando o sol já estava alto, Aldo interrogou os denominados agregados; por não estarem incluídos no plano original: duas mulheres e oito homens:

–Seu nome, idade e nacionalidade?

–Hiroko Kimura Terasaki, 19 anos, Nagashaki, Japão.

–Profissão?

–Professora de idiomas, história e ciencias.

–Por quê está aqui?

–Estou casada com o piloto Maya Terasaki e posso ensinar às crianças.

–Seja bem-vinda, senhora. Pode ir à enfermaria para exame. Próximo!

–Obrigada; capitão.

A segunda mulher passou à frente.

–Seu nome, idade e nacionalidade?

–Lídia Maximova, 24 anos, Moscou, Rússia.

–Profissão?

–Médica; doutora em medicina espacial, biologia, patologia e cirurgia.

–Por quê está aqui?

–Fui eleita entre cinco mil médicos voluntários da Resistência Russa.

–Entre cinco mil?

–Primeiro lugar.

–Por quê se apresentou voluntária?

–Alguém tinha que vir.

–Parabéns. Seja bem-vinda. Pode ir à enfermaria para exame. Próximo!

–Obrigada; capitão.

–Seu nome, idade e nacionalidade?

–Konstantin Diakonov, 26 anos, São Petersburgo, Rússia.

–Profissão?

–Navegador, astrônomo, matemático, perito no sistema solar.

–Por quê está aqui?

–Pelo mesmo que o fez minha camarada Lídia Maximova.

–Seja bem-vindo. Pode ir à enfermaria para exame. Próximo!

–Obrigado; capitão.

–Seu nome, idade e nacionalidade?

–Ludwig von Kruger, 50 anos, Stuttgart, Alemanha.

–Profissão?

–Professor de humanidades e ciências; naturalista, paleontólogo, arqueólogo, egiptólogo; doutor em medicina, cirurgião, professor de patologia, escritor...

–Notável currículo – interrompeu Aldo – Por quê está aqui?

Os azuis olhos do gordo cientista brilharam através do visor do capacete:

–Para estar bem longe da minha amada esposa.

–Seja bem-vindo – disse Aldo, sorrindo ao simpático recém chegado – Pode ir à enfermaria para exame. Próximo!

–Obrigado; capitão.

–Seu nome, idade e nacionalidade?

–Wernher Kauffmann, 38 anos, Viena, Áustria.

–Profissão?

–Médico nutricionista, biólogo, perito em cultivos hidropônicos.

–Por quê está aqui?

–Pela Causa, capitão. Ao final venceremos!

–Isso está perto. Seja bem-vindo. Pode ir à enfermaria para exame. Próximo!

–Obrigado; capitão.

–Seu nome, idade e nacionalidade?

–Patrick Cabot, 30 anos, San José, Uruguai.

–Profissão?

–Professor de física, matemática, escritor...

–Por quê está aqui?

–Não perderia esta aventura por nada do mundo.

–Seja bem-vindo. Pode ir à enfermaria para exame. Próximo!

–Obrigado; capitão.

–Seu nome, idade e nacionalidade?

–Ângelo Caselli, 51 anos, Turim, Itália.

–Profissão?

–Professor de filosofia, letras, línguas mortas, sacerdote católico...

Aldo levantou a cabeça, tentando enxergar através do visor do seu interlocutor.

–Surpreendido?

–Francamente sim – respondeu Aldo – eu não mandei buscar um capelão, até porque nós, de Antártica; somos pagãos.

–Sim, sei disso.

–Cultuamos outros deuses – disse Aldo sem pestanejar – nós odiamos seu deus rabugento, vingativo, assassino e traiçoeiro que gosta do cheiro de carne queimada!

–Seu preconceito é forte... – começou dizendo o padre Ângelo.

–Talvez porque li sua Bíblia com atenção – disse Aldo venenosamente.

–Isso depende do ponto de vista que...

–Por quê está aqui? – cortou Aldo secamente.

O sacerdote parecia não saber que lidava com um capitão do espaço; um antártico fanático fortemente doutrinado. Por isso respondeu:

–Porque a vossa avançada tecnologia vos fez esquecer que a mão do Senhor nos alcança também aqui, a milhões de kms do berço do cristianismo!

Aldo ficou de pé e encarou o recém chegado:

–Não viemos aqui para passear, viemos para conquistar espaço vital para nosso povo ameaçado pelos adoradores do seu deus assassino! E você não fará proselitismo entre os nativos, como vocês fizeram em América do Sul há mais de 500 anos! Não precisamos disso! Eu proíbo isso terminantemente! Proíbo isso! Ouviu?

–Ouvi. Não os converterei; embora Santo Tomás de Aquino dissesse que “o Sangue do Senhor é suficiente para a Redenção, embora seja de muitos mundos”.

Aldo; cujos pais foram perseguidos, presos, torturados e assassinados pelos adoradores do deus perverso da satânica Nova Ordem Mundial, replicou:

–Depende de qual Senhor você fala. Esse seu Senhor ajuda e enriquece nossos inimigos, que o consideram seu deus particular! Nós, os antárticos; não gostamos dele porque sempre nos ignorou e ajuda à tirania dos dominadores do mundo!

–Os homens são maus, concordo – disse o padre, tentando coçar a testa sem conseguí-lo por causa do capacete – eles se escondem por trás de Deus.

–Pode até ser. Mas o deus dos meus inimigos é meu inimigo; e os meus deuses sempre me ajudaram – disse Aldo – contudo, já que está aqui, seja bem-vindo por enquanto; Ângelo Caselli. Pode ir à enfermaria para exame. Próximo!

–Obrigado. Isso é melhor do que nada.

–Seu nome, idade e nacionalidade?

–Capitão Jacques Cartier, 32 anos, Lyon, França.

–Profissão?

–Astronauta, piloto de caça e de provas, engenheiro aeroespacial.

–Por quê está aqui?

–A Terra fica pequena em mim e os treze apóstolos do mal me dão coceira.

–Seja bem-vindo. Pode ir à enfermaria para exame. Próximo!

Merci.

–Seu nome, idade e nacionalidade?

–Tenente Adolphe D'Hastrel, 29 anos, Nantes, França.

–Profissão?

–Astronauta, piloto de provas, piloto de caça, navegador.

–Por quê está aqui?

–Para acompanhar o meu amigo Jacques.

–Seja bem-vindo. Pode ir à enfermaria para exame. Próximo!

Merci.

–Seu nome, idade e nacionalidade?

–Tenente Ives de Saint-Hilaire, 23 anos, Amiens, França.

–Profissão?

–Astronauta, piloto de caça e de provas, navegador.

–Por quê está aqui?

–Porque aqui estão meus camaradas de aventuras Jacques e Adolphe.

–E por quê eles estão aqui?

–Nem faço idéia, Monsieur le Capitaine. Mas eles não vão se livrar de mim, só porque vieram para cá. Não é justo!

–Seja bem-vindo. Pode ir à enfermaria para exame.

Merci.

O último dos denominados agregados dirigiu-se ao hospital, modestamente denominado “enfermaria”, apesar de estar equipado para realizar até transplantes.

–Terminou? – perguntou Marcos aproximando-se do seu irmão.

–Sim – disse Aldo, fechando a tampa do computador.

–Agora somos 518, mas de onde saíram esses agregados?

–É o que perguntarei ao capitão Fuchida.

–Chegaram dois iglus, tão grandes como nossa enfermaria.

–A escola, Marcos, e a capela. Temos um capelão no Ponto de Apoio.

–Os homens não vão gostar disso.

–Concluí que devemos tolerar. Muitas famílias são católicas. Dei permissão por um ano. Depois o padreco vai de volta se não se adaptar aos nossos costumes.

–Vou me comunicar com Phobos. Precisa alguma coisa?

–Mande voltar todos os chefes de departamento. Vamos planejar.

*******.

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