sexta-feira, 30 de março de 2012

Mundos Paralelos - Capítulo 8-8.8

8-8.8
25 de outubro de 2013.

Hoje partiu a expedição a Ceres. À frente, a Ikeya-Maru com a tripulação desfalcada. Maya e Chiyoko não vão, pois eles têm outras obrigações. Maya é o piloto de provas oficial.


Estão sendo produzidos um avião de caça e a nave para Júpiter e ele deve ficar para trabalhar nos projetos. Chiyoko resolveu ficar para trabalhar na programação de navegação do computador mestre da futura nave.


Para Ceres também esta indo a Antarte com Andrés, Pedro Alanís e Peter Paz entre outros; a Antares com o novo Capitão Breno Mendes e sua esposa Marília; a Polaris, comandada por Luiz Fagúndez e os irmãos Oly; finalmente a Ares I, comandada por Daniel Travieso Marín com sua esposa e sua tripulação.


Todas as naves, menos a Ikeya-Maru; estão levando seus containeres com material de sobrevivência.

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10 de novembro de 2013.

O protótipo CH-II está concluído e Maya o testará hoje.
Igual ao CH-I por fora, é uma máquina híbrida com tecnologia de dois planetas.


Como todos os caças da classe Churrinche, foi pintado de preto, a exceção do ventre e os bordes de ataque, vermelhos como o peito da ave sul americana que lhe dá nome.


Tem 11 metros e 10 de envergadura; fuselagem em forma de fuso e asa delta de geometria variável. O grosso da fuselagem mede dois metros. Seu motor é miniaturização do possante VALVII, do Dr. Valerión. Atinge 8.000 km/h em Marte e vinte vezes mais no espaço.


Na ponta das asas e leme tem três VAL-V de manobra; tão pequenos que quase não se enxergam de longe. Decola como helicóptero, tem antigravitator de tecnologia marciana que tira 100% do peso da nave.


O problema de energia das naves marcianas foi resolvido com o reator atômico. Sua capacidade de armamento é temível; porta quatro bombas nucleares, vinte mísseis, dois canhões rotativos de sete canos de 50mm para balas explosivas de U-235, com capacidade para 2000 balas cada; dois canhões marcianos com capacidade de 200 disparos cada, um canhão laser giratório de 20mm, que pode furar a fuselagem de qualquer nave que não fosse de vitrotitânio refratário.
Podem acabar as bombas, mísseis, balas ou energia dos canhões marcianos, mas o laser tem energia inesgotável enquanto o reator atômico funcionar.


Além da pesada blindagem, o escudo o deixa invulnerável. Abasteceu dois mil litros de fluido e foi testado em todas as condições possíveis de bombardeio em picado com bombas falsas e torpedos sem carga. Sua facilidade de manobra no espaço e na atmosfera marciana é absoluta; sua autonomia é de 24 horas, o máximo que pode suportar o piloto sem dormir; vestido com armadura e ligado a condutos de água, ar, calefação e urina. Após o teste, o protótipo pousou verticalmente onde Aldo e os projetistas esperavam. Maya pulou ao solo:

–E então?

–Vocês fizeram um precioso avião – disse Aldo – um porrete aéreo. Agora somos donos absolutos do espaço aéreo marciano e cinco milhões de kms de espaço em volta. Podem começar a produção. Maya, você é o supervisor.


–Sim, capitão. Podemos montar um por semana até o fim do ano. Até lá estará terminada a ampliação da fábrica e poderemos montar duas ou três linhas de produção até atingir quatro por semana.


–Agora que terminamos o CH-II – disse Aldo – é prioritário liberar a equipe de projeto para o Projeto Hércules. O CH-II será nosso Porrete Aéreo quando voltarmos à Terra e a Hércules será a nave para Júpiter.
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sexta-feira, 23 de março de 2012

Mundos Paralelos - Capítulo 8-8.7

8-8.7
30 de setembro de 2013.

Aldo e Fuchida estão em reunião no alojamento do primeiro.

–Minha nave está enferrujando, capitão – disse o japonês.

–Não por muito tempo, capitão. Tenho uma missão vital para você: Ceres, o maior asteróide conhecido. Estamos numa órbita bem próxima.

–Deseja que eu parta para os asteróides?

–Sim. Estabelecendo um Ponto de Apoio em Ceres, com os elementos que temos aqui, haverá uma segunda opção para atingir Júpiter, além do plano original, que era partir daqui. Está quase a meio caminho.

–Quando parto?


–Em poucos dias. Mas não irá sozinho. Comandará uma frota. Ao chegar deverá procurar urânio ou titânio, também deverá procurar o mineral para a fabricação do supervitro, e outros, hidrogênio e oxigênio, se o houver. Tudo o que for necessário para construir uma base igual à que temos aqui. Quando encontrar o que precisamos, a decisão será sua, capitão Fuchida; deverá escolher descarregar as naves e delimitar um acampamento, ou abandonar aí mesmo a carga e retornar a Marte, antes que Ceres se afaste mais na sua órbita. Nesse último caso, deveremos repetir a brincadeira só daqui a três anos, quando as condições astronômicas serão novamente favoráveis.

–De quanto tempo disponho?

–Para ir, vinte dias; para pesquisar e montar o jardim hidropônico, um mês; para voltar, outro mês. Para carregar mantimentos, material e retornar, dois meses, com um mês de tolerância, após o qual, não poderá voltar senão daqui a três anos.

–É arriscado ficar três anos sem mantimentos.

–Sim. A decisão é sua.

–Essa margem de segurança será adequada, capitão.

–Qualquer problema técnico pode ser fatal para vocês, e eu não estou certo de dispor de todas minhas naves para resgate.

–Entendi. Deverei decidir em um mês; entre estabelecer-me ou voltar.

–Isso aí. Se você consegue se estabelecer em Ceres; ao encontrarmos de novo, eu já terei chegado a Júpiter.

–Será ótimo.

–O planetinha mede em torno de 800 kms de diâmetro, pouco maior do que Dheimos. Um homem de 80 kg, em Ceres pesará 700 gramas. Coloque gravitação artificial na base. Desdobre painéis solares e colete energia solar. Pode parar a rotação dele para que sempre seja dia de um lado, se quiser. A zona está repleta de asteróides e duvido que não haja minério esperando por você.

–Haverá espaço para vários acampamentos como este, inclusive subterrâneos, aproveitando as galerias de mineração – disse pensativo o japonês – Ceres poderia ser nosso mundo alternativo onde poderíamos ficar para sempre, um local estratégico fora do alcance do inimigo para concentrar armamentos e naves para lutar a guerra final.

–Sim, mas é pequeno demais – observou Aldo.

–Mas não teríamos os problemas que poderíamos ter aqui com os nativos...

–Por favor, capitão, nem me lembre disso...!

–Estou certo que nada vive em Ceres, capitão...

–Capitão Fuchida, se você encontrar nem que seja apenas uma pequenina e maldita baratinha ceresana, esterilize o planeta, queime-o com laser ou com bombas nucleares. Não deixe nem a mais mínima forma de vida nele. Depois colonize.

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sexta-feira, 16 de março de 2012

Mundos Paralelos - Capítulo 8-8.6

8-8.6
26 de agosto de 2013.

Hoje começaram as aulas das crianças na escola da base; aulas que começaram onde eles pararam, segundo o programa curricular de Antártica e da Lua.

Ministradas por Patrick e Hiroko nas suas áreas; são auxiliados pela máquina de táquions e por um professor nativo de idioma marciano; conjuntamente com outro; também nativo; de História marciana; as novas matérias.

Há um Doutrinador; o capitão Elvis, para ensinar-lhes os motivos pelos quais tiveram que fugir da Terra; o que vieram fazer em Marte e o que se espera deles no futuro.

São as crianças que vivem felizes no Ponto de Apoio. Assistem a quatro horas diárias de aula cinco vezes por semana e duas de aula prática, aprendendo a viver no mundo novo, pesquisando vegetais, animais e solo; junto aos cientistas. O resto do dia elas perambulam pela base, brincando e praticando esportes novos num mundo onde vestem roupa espacial, o que é uma brincadeira maravilhosa.

Alguns conseguiram mascotes nativas. Estas crianças privilegiadas não conhecerão a opressão, a maldade, o crime e o vício. Só conhecerão o amor dos seus pais e camaradas.

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27 de agosto de 2013.

Pelo programa de confraternização; dois mil nativos de confiança de Bert Vurián se incorporaram à força de trabalho para acelerar a produção e construção.
As indústrias da base tomaram vigor, as naves vão às luas, onde se instalaram bases de serviço; e aos containeres e naves robôs para descarga.

Em Phobos a mineração funciona a pleno, como em Dheimos, onde o radiotelescópio funciona em caráter experimental.
Foi reconstruída a fábrica de combustível e logo estará funcionando a toda capacidade.
A fundição de ferro; que os marcianos prezam; fabrica barras a ritmo acelerado, extraindo-o do solo, separando o oxigênio, que quando não se aproveita sai em forma de jato por uma chaminé.
A fábrica INDEVAL Motores está tocando os projetos que vieram da Lua da Terra.

Os colonos estão satisfeitos com o modo de vida atual. Talvez sintam saudades da Terra e das diversões de Antártica e das bases lunares, mas logo vão perceber que Marte é uma Antártica o uma Lua mais tranqüila, sem medo de guerra. A vantagem de Marte é que aqui há serviço para todos, diferentemente de Antártica ou da Lua, onde eles eram reserva técnica porque todos os cargos estavam ocupados, onde o espaço vital, a água e a comida estavam racionados, coisa que não acontece aqui.
Em Marte sobra espaço vital, se trabalha oito horas por dia, cinco dias por semana; há oito horas tranqüilas, silenciosas, para dormir. Com toda esta gente, aboliram-se os três turnos; há oito horas para não fazer nada, há sábados, há domingos, que faltavam na Lua e na Antártica. Há cinemas, há escola, há igreja dominical, há piscina de natação e ginásio.

Aos domingos há diversões fortes; corridas de Autos-N no deserto, corridas de espaço-motos e corridas de caminhões de areia. Tudo transmitido a todo o planeta pela recém criada RTVM, (Rádio e TV Marciana).

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20 de setembro de 2013.

Agora tudo funciona. O Ponto de Apoio é uma pequena cidade. Parece uma fortaleza redonda; o terreno foi rebaixado e nivelado numa faixa de um km de extensão ao redor da cerca-escudo. Uma rampa leva ao portão de entrada. Resulta
impossível entrar nele por outro local que não seja o portão ou o céu.

No lado noroeste montou-se e abasteceu-se um mini-mundo ecológico fechado com vegetação trazida de várias regiões da Terra. As paredes e o teto são de alumínio transparente para aproveitar o sol, cujos raios ultravioletas são filtrados. O solo do mesmo é solo terrestre legítimo, trazido com os colonos. Um solo no qual se cultivou arroz, trigo, milho, pomares, legumes e frutas tropicais, como bananas e abacateiros.

Dentro dele, que ocupa um retângulo de seiscentos metros por cem, há um mini planeta Terra com um rio e um mar doce cheios de peixes; um deserto com cactos, lagartos, insetos e aracnídeos; uma floresta e um pântano com insetos, rãs, aves de caça e de rapina; uma pradaria, com ovelhas, cabras, coelhos, galinhas, patos e perus.
Dentro há uma cabana com saída pela eclusa, onde botânicos, zoólogos e veterinários trabalham. Ao lado, há em construção outro mini-mundo similar em tamanho e tecnologia, onde a experiência será repetida com solo fértil marciano para observar o resultados. É fundamental à sobrevivência saber se nutrientes locais são compatíveis com vegetais e animais terrestres. O ponto culminante da experiência será um terceiro mini-mundo ainda no papel, embora com terreno já delimitado; onde serão realizados testes de aclimatação de organismos nativos às condições terrestres.

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sexta-feira, 9 de março de 2012

Mundos Paralelos - Capítulo 8-8.5

8-8.5
21 de agosto de 2013.

Reunião de capitães e pilotos no Ponto de Apoio.

–Muitos não se adaptarão e deverão voltar – disse o capitão da Antarte.

–Estou de acordo com você Andrés. Mas o que mais me interessa de momento é saber mais sobre os agregados – disse Aldo.

–Maya teimou em ir ao Japão – interveio Alfredo – conversou em japonês com seus amigos pelo canal celular. Deixamos atrás os caças inimigos, pousamos num descampado perto de Nagashaki e ele pegou o espaço-moto e saiu voando. Uma hora depois voltou com a garota e sua bagagem na garupa.

–Foi um casamento rápido – disse Maya.

–O casal de russos esperava em Antártica – disse Alfredo.

–E o genoma deles?

–Agora é padrão em Antártica, Aldo. Veio equipamento e programas. Adeus às impressões digitais, exame de íris e o mais!

–Se tivéssemos tido isso na Lua, sete meses atrás, teríamos evitado todas aquelas mortes... – murmurou Aldo.

–Quanto aos três franceses – disse Alfredo – aventureiros dos bons. Estavam numa embarcação de dois mastros no Pacífico. Arrancaram a Marca e pretendiam ir para Taiti. Nos chamaram quando íamos para o Japão. Passaram pelo exame e oferecemos carona para qualquer país que desejassem, mas insistiram em vir aqui. Eles merecem. Em Antártica os prepararam. São desertores, lutaram na África quando a França exterminou toda a população do Senegal com gases e ficaram enojados.

–Boa pescaria. – disse Aldo – E com respeito ao religioso?

–Esperava em Antártica. Passou pelo exame, assim como o Dr. Kauffmann e os russos. Patrick Cabot também nos esperava lá. Nossa chegada foi descoberta pelo inimigo; mas a RTVV combateu fogo com fogo e fez uma festa. Agitou bastante.

–Sabe que não é algo de praxe ter padres católicos entre nós...

–Sei disso, Aldo – replicou Alfredo – mas os chefes impuseram o padreco para acalmar à plebe. O embarque dos agregados na Antártica foi transmitido ao vivo pela RTVV. Além do mais ele arrancou a Marca como os outros. O professor alemão embarcou por mediação do Dr. Kauffmann; nas imediações de Stuttgart, onde logo derrubamos dois caças da União Européia e colocamos outros dois em fuga.

–Eu disse para não buscar encrenca. Isso foi uma provocação que pode...

–Isso foi preciso, Aldo – interrompeu Andrés – Kauffmann e Von Kruger são amigos de Valerión e ele os quer aqui.

–Está bem. Mas se arriscaram demais indo à Europa.

–Foi divertido – interveio Maya – ele estava na beira de uma estrada em seu Volks vermelho com bagagem, maleta de médico, material de laboratório, computador e caixotes de livros. Embarcamos tudo em dois minutos, Volkswagen incluído.

–Trouxeram o carro? – escandalizou-se Aldo – Vocês são loucos! Nunca funcionará nesta atmosfera...!

–Ele insistiu em trazê-lo como o primeiro item de um museu marciano – disse o piloto japonês – afirmou que seu carro era seu amor e sentiria muita dor se o abandonasse para enferrujar; mais do que abandonar a sua amada esposa. Quando estávamos voltando, ele enviou um e-mail: "Querida Gretchen; preciso resolver alguns assuntos em Marte. Não me espere para jantar. Beijos. Ludwig."

–Ele tem senso de humor – disse Aldo – Como foi que vocês souberam disso?

–Ele usou o sistema da Ares II e salvamos uma cópia. Kauffmann a traduziu.

–Vocês não têm vergonha? – disse Aldo olhando severamente para todos os presentes – Estragaram um, antes, corretíssimo, jovem japonês!

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25 de agosto de 2013, Domingo.

Hoje se inaugurou a capela e o padre rezou a primeira missa às esposas dos cientistas e crianças. A capela para duzentas pessoas quase encheu. Os astronautas não assistiram por princípio. Aldo recomendou tolerância, mas eles abominavam a religião católica por ser instrumento da opressão em que tinham vivido. De todas maneiras, o sermão do padre foi positivo; falou mal da Nova Ordem Mundial, execrou os traidores e concluiu:

"–Estamos sozinhos aqui; vivendo tempos apocalípticos, porém donos de nosso destino, em Marte; um mundo novo que Deus – qualquer que seja a idéia que tenhamos d'Ele – nos deu para recomeçar e escapar da Grande Tribulação. Como manda o Livro, fugimos às montanhas, onde os servos de Satã não podem nos alcançar para nos colocar a Marca. Devemos amar-nos uns aos outros e amar os nossos guerreiros astronautas antárticos apesar de que eles amam outros Deuses; porque por eles escapamos do Anticristo, a Besta do Apocalipse que governa a Terra. Agradecemos por isso; devemos amar e respeitar o nosso Líder Aldo, que apesar de jovem e descrente, ele é essencialmente bom e nos guiará com mão segura e confiante ao futuro. Devemos rezar e pedir que nossos irmãos oprimidos que ficaram na Terra possam escapar do demônio, como nós conseguimos. Devemos rezar para que se cumpra a profecia do Apocalipse, de que um dia nossos guerreiros voltarão à Terra, descendo do céu para lutar a guerra do Armagedon contra os demônios sicários do Grande Satã e derrotá-los para liberar nosso pobre mundo desse flagelo."

O sermão foi transmitido à Terra, onde a imagem foi captada quase uma hora depois pela RTVV. Aldo soube do sermão na hora do jantar, e com a consciência um pouco pesada por ter sido tão descortês com o religioso, disse aos seus colaboradores:

–Gostei do padre.

–Aceitou que a missa fosse transmitida – disse Regina – e com isso queimou suas naves, como fez Hernán Cortés no México...

–Se ele algum dia voltar à Terra; será assassinado. A ditadura não perdoa.

–Isso não quer dizer que agora assistirás às missas...

–Claro que não, Regina. Ora essa!

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sexta-feira, 2 de março de 2012

Mundos Paralelos - Capítulo 8-8.4

8-8.4
10 de agosto de 2013. Ao amanhecer.

A Antílope pousou na pista do Ponto de Apoio.
Aldo, Inge e Regina vão para o alojamento do primeiro. Ao seu encontro, aparecem Marcos e Bárbara.


–Por fim! – disse ela – Estávamos preocupados!

–Nem imagina – disse Aldo – revolucionaremos a história com o que sabemos!

Entraram e tiraram os capacetes. Aldo colocou um envoltório cheio de livros e pastas com folhas soltas sobre a mesa.

–Marcos, aqui há segredos técnicos das células de energia que eles usam até para armas, um manual de antigravitação, um tratado de história... Regina e eu somos quase doutores, agora. Tomarei banho e vamos a trabalhar em cima disso.

–Excelente caça, Aldo!

Dez minutos depois, Aldo e as garotas apareceram de cabelo úmido, trajando camisetas, calções e calçado de lona.

–Vejo que está interessado, irmão – disse Aldo.

–Não consigo decifrar a escrita. Preciso de mais horas na máquina...

–Regina lê isso de trás para frente e vice-versa. Com isto podemos passar à segunda etapa do plano de operações; a construção de uma nave maior. Quando tiver os técnicos da INDEVAL aqui, será possível desenvolver o projeto... Aliás, eles estão demorando muito. Devemos entrar em contato, Marcos.

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20 de agosto de 2013.

Enquanto as naves eram descarregadas, Aldo, sentado à mesa de campanha ao ar livre, manipulava o computador com destreza, apesar das luvas.

Fiscalizava uma por uma as fichas de cadastro e o genoma dos recém chegados. Os tubos das naves ainda estavam quentes, soltando vapores azuis no frio ar do amanhecer.

Cento e cinqüenta cientistas, suas cem esposas e trinta meninos e meninas, caminhavam com cuidado na gravitação baixa, enfiados em trajes espaciais brilhantes de novos, aos que ainda não estavam habituados.

Depois foram as cinqüenta esposas de astronautas e igual número de filhos. Depois irmãos e irmãs de astronautas, quinze mulheres e cinco homens. Por último, quando o sol já estava alto, Aldo interrogou os denominados agregados; por não estarem incluídos no plano original: duas mulheres e oito homens:

–Seu nome, idade e nacionalidade?

–Hiroko Kimura Terasaki, 19 anos, Nagashaki, Japão.

–Profissão?

–Professora de idiomas, história e ciencias.

–Por quê está aqui?

–Estou casada com o piloto Maya Terasaki e posso ensinar às crianças.

–Seja bem-vinda, senhora. Pode ir à enfermaria para exame. Próximo!

–Obrigada; capitão.

A segunda mulher passou à frente.

–Seu nome, idade e nacionalidade?

–Lídia Maximova, 24 anos, Moscou, Rússia.

–Profissão?

–Médica; doutora em medicina espacial, biologia, patologia e cirurgia.

–Por quê está aqui?

–Fui eleita entre cinco mil médicos voluntários da Resistência Russa.

–Entre cinco mil?

–Primeiro lugar.

–Por quê se apresentou voluntária?

–Alguém tinha que vir.

–Parabéns. Seja bem-vinda. Pode ir à enfermaria para exame. Próximo!

–Obrigada; capitão.

–Seu nome, idade e nacionalidade?

–Konstantin Diakonov, 26 anos, São Petersburgo, Rússia.

–Profissão?

–Navegador, astrônomo, matemático, perito no sistema solar.

–Por quê está aqui?

–Pelo mesmo que o fez minha camarada Lídia Maximova.

–Seja bem-vindo. Pode ir à enfermaria para exame. Próximo!

–Obrigado; capitão.

–Seu nome, idade e nacionalidade?

–Ludwig von Kruger, 50 anos, Stuttgart, Alemanha.

–Profissão?

–Professor de humanidades e ciências; naturalista, paleontólogo, arqueólogo, egiptólogo; doutor em medicina, cirurgião, professor de patologia, escritor...

–Notável currículo – interrompeu Aldo – Por quê está aqui?

Os azuis olhos do gordo cientista brilharam através do visor do capacete:

–Para estar bem longe da minha amada esposa.

–Seja bem-vindo – disse Aldo, sorrindo ao simpático recém chegado – Pode ir à enfermaria para exame. Próximo!

–Obrigado; capitão.

–Seu nome, idade e nacionalidade?

–Wernher Kauffmann, 38 anos, Viena, Áustria.

–Profissão?

–Médico nutricionista, biólogo, perito em cultivos hidropônicos.

–Por quê está aqui?

–Pela Causa, capitão. Ao final venceremos!

–Isso está perto. Seja bem-vindo. Pode ir à enfermaria para exame. Próximo!

–Obrigado; capitão.

–Seu nome, idade e nacionalidade?

–Patrick Cabot, 30 anos, San José, Uruguai.

–Profissão?

–Professor de física, matemática, escritor...

–Por quê está aqui?

–Não perderia esta aventura por nada do mundo.

–Seja bem-vindo. Pode ir à enfermaria para exame. Próximo!

–Obrigado; capitão.

–Seu nome, idade e nacionalidade?

–Ângelo Caselli, 51 anos, Turim, Itália.

–Profissão?

–Professor de filosofia, letras, línguas mortas, sacerdote católico...

Aldo levantou a cabeça, tentando enxergar através do visor do seu interlocutor.

–Surpreendido?

–Francamente sim – respondeu Aldo – eu não mandei buscar um capelão, até porque nós, de Antártica; somos pagãos.

–Sim, sei disso.

–Cultuamos outros deuses – disse Aldo sem pestanejar – nós odiamos seu deus rabugento, vingativo, assassino e traiçoeiro que gosta do cheiro de carne queimada!

–Seu preconceito é forte... – começou dizendo o padre Ângelo.

–Talvez porque li sua Bíblia com atenção – disse Aldo venenosamente.

–Isso depende do ponto de vista que...

–Por quê está aqui? – cortou Aldo secamente.

O sacerdote parecia não saber que lidava com um capitão do espaço; um antártico fanático fortemente doutrinado. Por isso respondeu:

–Porque a vossa avançada tecnologia vos fez esquecer que a mão do Senhor nos alcança também aqui, a milhões de kms do berço do cristianismo!

Aldo ficou de pé e encarou o recém chegado:

–Não viemos aqui para passear, viemos para conquistar espaço vital para nosso povo ameaçado pelos adoradores do seu deus assassino! E você não fará proselitismo entre os nativos, como vocês fizeram em América do Sul há mais de 500 anos! Não precisamos disso! Eu proíbo isso terminantemente! Proíbo isso! Ouviu?

–Ouvi. Não os converterei; embora Santo Tomás de Aquino dissesse que “o Sangue do Senhor é suficiente para a Redenção, embora seja de muitos mundos”.

Aldo; cujos pais foram perseguidos, presos, torturados e assassinados pelos adoradores do deus perverso da satânica Nova Ordem Mundial, replicou:

–Depende de qual Senhor você fala. Esse seu Senhor ajuda e enriquece nossos inimigos, que o consideram seu deus particular! Nós, os antárticos; não gostamos dele porque sempre nos ignorou e ajuda à tirania dos dominadores do mundo!

–Os homens são maus, concordo – disse o padre, tentando coçar a testa sem conseguí-lo por causa do capacete – eles se escondem por trás de Deus.

–Pode até ser. Mas o deus dos meus inimigos é meu inimigo; e os meus deuses sempre me ajudaram – disse Aldo – contudo, já que está aqui, seja bem-vindo por enquanto; Ângelo Caselli. Pode ir à enfermaria para exame. Próximo!

–Obrigado. Isso é melhor do que nada.

–Seu nome, idade e nacionalidade?

–Capitão Jacques Cartier, 32 anos, Lyon, França.

–Profissão?

–Astronauta, piloto de caça e de provas, engenheiro aeroespacial.

–Por quê está aqui?

–A Terra fica pequena em mim e os treze apóstolos do mal me dão coceira.

–Seja bem-vindo. Pode ir à enfermaria para exame. Próximo!

Merci.

–Seu nome, idade e nacionalidade?

–Tenente Adolphe D'Hastrel, 29 anos, Nantes, França.

–Profissão?

–Astronauta, piloto de provas, piloto de caça, navegador.

–Por quê está aqui?

–Para acompanhar o meu amigo Jacques.

–Seja bem-vindo. Pode ir à enfermaria para exame. Próximo!

Merci.

–Seu nome, idade e nacionalidade?

–Tenente Ives de Saint-Hilaire, 23 anos, Amiens, França.

–Profissão?

–Astronauta, piloto de caça e de provas, navegador.

–Por quê está aqui?

–Porque aqui estão meus camaradas de aventuras Jacques e Adolphe.

–E por quê eles estão aqui?

–Nem faço idéia, Monsieur le Capitaine. Mas eles não vão se livrar de mim, só porque vieram para cá. Não é justo!

–Seja bem-vindo. Pode ir à enfermaria para exame.

Merci.

O último dos denominados agregados dirigiu-se ao hospital, modestamente denominado “enfermaria”, apesar de estar equipado para realizar até transplantes.

–Terminou? – perguntou Marcos aproximando-se do seu irmão.

–Sim – disse Aldo, fechando a tampa do computador.

–Agora somos 518, mas de onde saíram esses agregados?

–É o que perguntarei ao capitão Fuchida.

–Chegaram dois iglus, tão grandes como nossa enfermaria.

–A escola, Marcos, e a capela. Temos um capelão no Ponto de Apoio.

–Os homens não vão gostar disso.

–Concluí que devemos tolerar. Muitas famílias são católicas. Dei permissão por um ano. Depois o padreco vai de volta se não se adaptar aos nossos costumes.

–Vou me comunicar com Phobos. Precisa alguma coisa?

–Mande voltar todos os chefes de departamento. Vamos planejar.

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