sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Mundos Paralelos - Capítulo 8-8.2

8-8.2
4º de agosto de 2013.

Enquanto Inge e Boris colhiam informação técnica, Aldo e Regina foram ao Gabinete de História da Casa de Ciências, por convite do Eminente Sinh-Praa, o primeiro cientista e governante do país subterrâneo.

O velho é tão inteligente que já aprendeu a expressar-se em espanhol, embora com algumas dificuldades.

–Boris me ensinou o rudimento da língua que não é tão difícil tendo em conta que também consigo entender mais duas do seu planeta; o alemão e o inglês.

Aldo e Regina olharam-se. Os precursores da Haunebu-3 chegaram primeiro.

–Eminência – disse Regina – sua revelação nos entristece. Acreditávamos ser os precursores, mas alguém chegou antes. Isso nos tira nossa pretensa glória.

–Antes de eu nascer, chegou uma nave circular, como às dos ranianos, outrora donos de grande parte deste setor do quadrante, Regina.

–E quê aconteceu com os que chegaram?

–Montaram sua comunidade perto daqui, numa fenda perpendicular à nossa, ao
norte. Fizeram amizade conosco e trocamos informações.

–Ainda moram aqui? – Aldo tremia de emoção.

–Não. Foram embora com os milkaros, seres de um império extragaláctico que dominam as luas do planeta Vurón, o maior de nosso sistema.

–Júpiter. – aventurou Regina.

–Nunca mais voltaram – disse Sinh-Praa com sincero pesar – mas quando eu era jovem, chegaram objetos do seu mundo, que achamos serem de nossos amigos.

–Aí aprenderam o inglês – cortou Aldo – Vocês estão de posse desses objetos?

–Não, estão em Darnián.

–Os darnianos são um bom povo? Vocês têm relações amistosas com eles?

–Temos. Eles estão em permanente contato conosco, nos visitam.

–E o pessoal de Hariez? – perguntou Regina.

–São introvertidos. Já os visitamos, porém sempre seguem complicados rituais, seu governo é fechado, seu Rei é muito duro, introvertido, como todos eles, e além do mais não enviam muitas delegações às outras comunidades, como é de praxe.

–Sabemos que eles têm uma rixa com Darnián por causa de um território, justamente o território que nós resolvemos ocupar.

–Sim. Já soube disso. Tiveram uma rixa?

–Tivemos. Mas acho que entenderam a mensagem e não nos incomodarão mais. Seria lamentável ter que exterminá-los. Isso não seria bom para nossa amizade com as outras comunidades deste mundo.

*******.


O Eminente Sinh-Praa estava feliz, com seres de fora para conversar. Sua idade era impossível de ser calculada; talvez 70 ou mais anos terrestres.

–Jovens amigos; o que lhes interessa é a história do mundo; me engano?

–Não se engana – disse Aldo folheando livros escritos à mão, vendo mapas, primorosamente desenhados e a mesa de trabalho do velho líder.

–Para falar dos angopakis, habitantes do subsolo; devemos falar dos gopakis, da superfície, e dos analgopakis, os ranianos do espaço exterior.

–Analgopakis? – interessou-se Aldo.

–Ut spoka-a or analgopakin – disse Regina em marciano para poupar tempo.

–Falar-lhe-ei dos primeiros que vieram numa época em que Gopak (o mundo) tinha muita água e vegetação, atmosfera densa e gravitação maior. Disto faz mais de vinte e cinco mil ciclos, Aldo.

–Quase cinqüenta mil anos! – interveio Regina.

–Os gopakin conheciam o eracl (ferro) e o trabalhavam. Animais voavam, a atmosfera podia sustentá-los, o clima era quente, mas chegaram os analgopakis. Eles trouxeram os ancestrais de nossa espécie de uma estrela próxima há milhares de ciclos, mas nossa raça tinha esquecido disso. Soubemos disso muito tempo depois.

–Eles eram bons?

–Eram deuses e como tais eram tratados. Seu mundo era Ran. Já não existe, foi destruído num cataclismo. Estava entre Vurón e nós. Hoje só há pedras mortas. Eram generosos; eles instalaram bases, população... Aprendemos coisas úteis, organizaram a civilização, as colheitas, trouxeram vegetais alimentícios, animais de carne e lã; indústrias em que trabalhamos produzindo bens e matéria prima para abastecer exércitos, astronaves e fortalezas das legiões espaciais.

–Quê maravilha tudo isso! – Regina quase chorava de emoção.

–Muitos dos nossos foram recrutados como legionários, para lutar em estrelas distantes, conquistando mundos e raças para a glória do Império.

–Quê aparência tinham os ranianos? – perguntou Regina.

–Igual à de vocês.

O silêncio que se seguiu podia cortar-se com uma faca.

–Como sabe que não somos ranianos? – conseguiu dizer a jovem psicóloga.

–A uio gop des – (Minha pequena amiga) – disse Sinh-Praa – Uts das is ranian! – (Vocês são ranianos!).

*******.

Aldo e Regina ficaram pasmos, isso confirmava as lendas. Não esperavam a confirmação de forma tão fácil. Devia ser erro de tradução; Sinh-Praa dissera:

–Uts das is ranian! – (Vocês são ranianos!).

O Eminente Sinh-Praa sorria, marcianamente satisfeito pelo efeito ocasionado.

–Vocês dominaram o setor há muito tempo, só não têm memória racial disso.

–Temos, sim, Eminência – disse a psicóloga – há registros antigos.

–Quero saber mais – disse Aldo.

–A esfera raniana tinha duzentos quarenta e cinco parsecs de diâmetro – disse o sábio – e abrangia mais de mil sistemas solares.

–Isso teve um final, você disse um cataclismo – disse Regina – Como foi?

–O acesso à informação de primeira mão – disse o sábio, após uma dramática pausa – era limitado por sermos província; sabia-se que havia uma potência em guerra com o Império, uma raça bárbara, tão alienígena que não poderíamos conviver com ela. Era imperativo que fosse destruída. O que sabemos é que houve uma guerra interestelar e Ran foi destruído, espalhando seus restos por todo o sistema.

–O quê aconteceu com as colônias?

–Sei o que aconteceu aqui, Aldo. O povo rebelou-se contra a ocupação enfraquecida pelo envio de tropas ao espaço, quem ficou foi exterminado. Presumo que nas colônias deve ter havido revoluções. Claro que isso é hipótese...

–Quais as conseqüências do fim do Império para vocês?

–Graves Regina. Claro que éramos auto-suficientes, os ranianos deixaram sua língua, costumes, ciência, deuses e monumentos, construíram os canais navegáveis que ainda servem para distribuição de água quando chega o degelo. Vocês contaram sua aventura no Magta Ers, que é um canal. A floresta não deixa perceber isso, devido ao abandono. Aqui somos abastecidos por um canal vindo do norte.

–O vimos de cima – disse Aldo.

–Era iminente a explosão de Ran e os habitantes resolveram abandoná-lo, embora poucos conseguiram. Gopak (Marte) era pequeno, além do mais, estava esgotado. Xarn (A Terra) e Boral (Vênus) rebelaram-se, pelo que resolveram seguir para fora. A família real foi para as grandes luas do planeta com anéis.

–Mas Vurón (Júpiter) também possui grandes luas...

–Estão ocupadas por uma raça amiga de outra galáxia: os milkaros. Como eu já disse; eles levaram embora os primeiros terrestres que aqui chegaram.

–Os ranianos estão nas luas do planeta com anéis, desde então?

–Não sei com certeza, Regina. O transporte em massa parece que não chegou a realizar-se, apenas alguns poucos foram para lá.

–Havia em Ran muitos da sua raça, Eminência?

–Sim, Aldo. Também raças conquistadas. Fomos chamados de Inferiores, mas com cidadania plena e todas suas vantagens...

–E com respeito aos inimigos?

–Não soubemos nada deles, Regina. Pensamos que seriamos atacados após a destruição de Ran, mas nada aconteceu.

–E nós?

–Vocês foram deixados a pé, Aldo. Não houve tempo de recolhê-los. Ficaram abandonados à mercê dos nativos n’gorils; acredito que sofrendo guerras que talvez os fizeram esquecer de suas origens.

–Somos náufragos... – disse Aldo, pensando em voz alta.

–Quê aconteceu aqui depois da liberação? – perguntou Regina.

–Tivemos algumas guerras e paz, progresso e decadência, mas nos adaptamos, a atmosfera enfraqueceu e os animais voadores degeneraram. De tanto em tanto caía algum pedaço de Ran, causando destruição, formando crateras que vocês devem ter visto de cima; o solo oxidou-se, a água que já era pouca, evaporou-se, com o que populações inteiras morreram de sede. Um grupo fundou esta comunidade, outros grupos formaram comunidades com territórios mais ou menos definidos para plantar, caçar e criar os woks, animais que produzem carne, couro, lã, ossos, leite, etc.

–Disseram-me que há aldeias independentes...

–Sim, Aldo. Não pertencem a comunidades, mas praticam o intercâmbio com elas. Há os silvícolas aborígines, que vivem como antes da chegada dos ranianos.

–Muito obrigado por seus ensinamentos, Eminência. Serão úteis.

–Para mim foi um prazer conversar com seres de inteligência superior, Regina.

–Nossos ouvidos esperavam essas revelações desde muito tempo atrás, desde que nossos antepassados aprenderam a observar o céu.

*******.

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