sexta-feira, 29 de abril de 2011

Mundos Paralelos - capítulo 4 - 4.9

4-49

23 de maio, ao pôr do sol.

A naves antárticas, Ares I e Ares II; já em órbita, solicitam permissão para aterrissar no Ponto de Apoio. Aldo entra em contato com a Ares I, ilumina-se a tela do terminal e aparece o semblante jovial e sorridente do coronel Daniel Marín, o líder dos pilotos da FAECS. A surpresa e a alegria de Aldo não têm limites ao ver seu ex-colega da Academia Espacial Militar Antártica).


–Daniel...! Não acredito! Não lhe esperava antes de novembro!



–Resolvemos fazer-lhe uma visita antecipada, junto com Alfredo.



–Alfredo Solís está com você?



–Sim, na Ares II. Estamos soltando os containeres.



–Mas... Quê dupla de loucos! Desçam de uma vez!



Vinte minutos depois, as duas naves tomam pista, não sem antes fazerem um
monte de temerárias acrobacias aéreas à baixa altura sobre o acampamento antártico, como se fossem simples caças num circo aéreo, deixando todo mundo no Ponto de Apoio com a adrenalina à flor de pele.

Vinte homens desce
ram das naves e foram recebidos efusivamente no alojamento principal. Daniel e Alfredo portavam duas caixas de cerveja em lata, que com o frio ambiente, ficariam na temperatura adequada uma vez dentro do alojamento.


Enquanto os tripulantes confraternizavam, encontrando velhos camaradas
e amigos, os capitães Elvis, Andrés, Luis, Daniel e Alfredo, se reuniam com Aldo ao redor de uma mesa, na frente da cerveja recém desembarcada.

Depois de um trago, Daniel disse:


–A coisa está esquentando por lá. O poder do Grande Irmão está descomunal,
mas ainda não conseguiu nos dobrar.


–E o povo?



–O povo está comparando, Aldo. Sob o domínio dos Treze malditos, as
cidades fedem de sujeira, de ratos, baratas, mendigos, degenerados e criminosos. Parece que não saiu como Eles queriam.


–Em nosso domínio – disse Alfredo – estamos limpos, alimentados e sadios.


–Também não sei até quando – acrescenta Daniel – Os alimentos começam a faltar em algumas regiões.


–E Antártica?



–Aí é que está o problema, Aldo – disse Daniel – Exportamos alimento para os
países que nos apóiam.


–Mas não podemos ser o celeiro do mundo!


–Claro que não! Os hidropônicos de Neu Schwabenland, no subsolo da Terra
da Rainha Maud, não são suficientes – afirmou Daniel.


–Precisamos abastecer a Lua e a nós mesmos – intervém Alfredo.


–De todas maneiras Argentina Sul, produz o suficiente para manter-se, e Chile
e Uruguai também – disse Daniel.


–No hemisfério norte, e em alguns países da América e África, não se cultiva mais a terra, o povo está indo às cidades para morar em favelas – disse Alfredo.


–Por quê? Pelos impostos? Preço dos insumos? Falências?



–Tudo isso que citou e ainda mais, Aldo – interveio Daniel – Os malditos
tiranos não são de trabalhar a terra senão de explorar os que a trabalham. E a população ignorante não o faz porque quer assemelhar-se aos dominadores, os trouxas querem ostentar a Marca para ter ilusão de estarem integrados, globalizados. Acham o máximo. Mas nós sabemos o que lhes acontecerá depois. Não é Alfredo?


–Servirão de pasto dos tiranos quando precisarem de peças de reposição.



–E como está a Lua? – perguntou Aldo.



–Com Max Guerreiro, a coisa começa a melhorar. Em um ano, a Lua não
precisará importar alimento nem água. Estamos explorando as fontes de gelo lunares da região Sul, e as fontes sublunares do Circus Clavius. Valerión mandou levar todo o
material estocado em Port Armstrong numa caravana de veículos para a nova base perto de Clavius, onde há gelo subterrâneo. Aí foram montadas as fábricas de
vitrotitânio e combustível – disse Daniel.


–Quando partimos; Valerión estava indo para a base da Cara Oculta.



–Sim. Aí fabricará naves e armamento nuclear para Max Guerreiro. Cara
Oculta está fora do alcance de mísseis inimigos.


–Devia imaginá-lo. É a única maneira de Valerión trabalhar produzindo para
nós sem ser molestado.


–Max está colocando gente selecionada de Antártica, Brasil, Argentina, Chile e Uruguai, dando preferência a casais jovens, de boa saúde geral, com um ou dois filhos.


–Isso é perigoso – disse Aldo – pode dar lugar à infiltração inimiga. Sabes que
eles sempre têm boa saúde e aparência, Daniel.


–Não há problema, Aldo. Depois de pegar os traidores e os infiltrados dentro de Antártica, começamos a admitir pessoas com base no genoma. Não há a mínima possibilidade de entrar alguém cujo DNA não confira com nossa base de dados.


Aldo estava maravilhado.



–Finalmente conseguiram? Mas o inimigo deve tê-lo também...



–Não. – Daniel foi lacônico – Além de roubar o segredo do Projeto Genoma, o
Esquadrão Shock matou todos os cientistas inimigos envolvidos no projeto deles.


–Mataram? – Aldo estava apavorado.



–Não se perdeu muito, acredite – disse Daniel – todos aqueles malditos
cientistas eram da classe dominante; inúteis e perigosos para nós.


–Além do mais – interveio Alfredo – o Esquadrão destruiu os computadores após pegar os dados. Destruiu as redes de base de dados que não pôde roubar com vírus e logo depois soltou na rede o vírus mutante fabricado pelo nosso agente na Islândia; dinamitou e queimou os laboratórios, após matar os cientistas, é claro.


–O Esquadrão extrapolou desta vez – disse Aldo.



–Você não sabe nem a metade do que o Esquadrão já fez, Aldo – disse Daniel
empolgado – Isto tudo, nós devemos ao Esquadrão Shock, direta ou indiretamente.


–Eles sangraram para que Antártica fosse realidade e que ainda estejamos
vivos e livres em Marte, em vez de escravos da ditadura maldita – disse Alfredo.


–Realmente pouco sei deles, Alfredo.


–Geralmente ninguém conta nada dos bastidores aos astronautas, Aldo.



–Mas por quê?



–Acham que somos valiosos demais para ocupar nossas cabecinhas com outra
coisa que não seja nossa missão – interveio Daniel – Mas nós sabemos alguma coisa sempre, por meio dos camaradas da Inteligência.


–A luta do Esquadrão Shock para dar-nos a liberdade e o espaço sideral, algum
dia será contada, pode crer, Aldo – disse Alfredo – Talvez pelo próprio Valerión.


–Valerión foi membro do Esquadrão – acrescentou Daniel – Em 1998 ele
roubou e decifrou o código deles, e aí tudo começou.


Aldo estava empolgado como uma criança com brinquedo novo ao descobrir que seu admirado mentor, Valerión, fora integrante do famoso Esquadrão Shock.


–Ah...! Eu tinha nove anos! Quero saber mais, mas ninguém me conta nada!



–Outro dia, Aldo – disse Alfredo, muito mais interessado no momento e no
lugar que estava vivendo.


–Cretinos! Despertam minha curiosidade e depois jogam baldes de água fria!
Querem me manter numa redoma? – Aldo estava realmente alterado, detestava o fato de que muitas coisas realmente importantes sobre a Causa, eram ocultadas dos astronautas de primeira linha, como ele, que tanto tinha feito. Achava que tinha ganhado o direito de entrar no rol dos iniciados. Por isso acrescentou:


–Tenho direito de saber sobre o passado, acho que ganhei esse direito ao vir
aqui e fazer o que fiz em prol da Causa!


–Não precisa irritar-se, Aldo – disse Daniel – nós apenas sabemos um pouco mais do que você sobre isso. Alfredo só disse o pouco que conseguimos descobrir.


–De terceira e quarta mão, se quer saber – disse o aludido.


–O mais indicado é Valerión – prosseguiu Daniel – Ele sabe tudo, conhece o
Líder, ajudou a fundar o grupo e foi membro dele. Nunca notou uma pequena cicatriz que Valerión tem na têmpora direita?


–Notei.


–Foi numa missão em Buenos Aires em 1998.



–Ele foi ferido e seqüestrado por um bando de mendigos que queriam vendê-lo
para o Banco de Órgãos – interveio Alfredo.


–Não estão brincando comigo?



–Não. Quem o salvou foi um gigante austríaco chamado Alois Stülpnagel,
mais conhecido pelo codinome de “Trovão”.


–Claro que ouvi falar do “Trovão”!



–E o Darlán, a Liza, e o Syd? – perguntou Daniel.




–Claro! – respondeu Aldo – São lendários... Syd o homem das facas, Liza, a
mulher das armas leves, Trovão, o homem das armas pesadas, Darlán, o perito em informática... Sabiam que ele foi aluno de Thorwold Igmar Stefansson, pai da Inge?


–Darlán foi aluno dele? Do homem que criou o IS-TRES, o sistema antártico
de Informática, superior ao MSDOS, ao Windows, ao McIntosh, ao Linux...?


–Foi. Ele foi assassinado pela ditadura por isso, Daniel.


–Você vê Aldo, por isso, foi possível que hoje estivéssemos aqui – completou
Alfredo – Se Valerión tivesse morrido naquela ocasião, adeus Projeto Selene, adeus Projeto Marte. Estaríamos trabalhando para a ditadura ou mortos.


–É mais provável o último – disse Daniel – Depois de escapar dessa, Valerión
bolou o Projeto Atlantis. O seqüestro do ônibus espacial.


–Ah!... Sei. – disse Aldo lembrando do codinome da operação – Se não fosse
por isso, não teríamos construído as naves da classe Selene, nem teríamos ocupado a
Lua bem na cara deles, nem estaríamos agora em Marte.


–Sem esquecer a captura dos submarinos nucleares – disse Daniel.


–Sim, amigos. De uma forma ou de outra, talvez devamos nossas vidas como
elas são atualmente, ao Esquadrão Shock – disse Alfredo.


–Bebamos a isso – disse Daniel – Ao Esquadrão Shock!


–Sim – disse Aldo – vamos beber ao Esquadrão Shock!


*******.

FIM DO CAPÍTULO IV


Mundos Paralelos ® – Textos: Gabriel Solis - Arte: André Lima.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Mundos Paralelos - capítulo 4 - 4.8

4-4.8

Hóspedes.

Seis homens vigiam os marcianos sentados ao lado de um dos alojamentos, enquanto o Dr. Klinger recoloca o osso quebrado do prisioneiro no lugar e coloca uma tala.


Uma garagem foi preparada para alojar os prisioneiros. Os antárticos, habituados
ao trabalho no espaço e na Lua, onde treinaram; estavam em seu elemento.


–Vai ficar bom. É um cara forte e a gravidade ajudará. Seus companheiros saberão como cuidá-lo. Mandou construir camas para eles?


–Sim, Só não sei que lhes dou de comer.


–Procure no carro, deve ter alguma coisa lá dentro.


Aldo e Marcos entraram no carro que tinha horríveis destroços.


–Há latas escritas – disse Marcos, remexendo na bagunça.


Por lógica, deduziram que era alimento, já que num armário alto destroçado havia outras com os mesmos caracteres, que pareciam semelhantes no conteúdo.


–Há galões de água. Um está vazando. Leve isso para ver se é comida e água do consumo deles.


A comida e a água dos marcianos e os mantimentos existentes do carro foram
trazidos à garagem.


–Mas e a água, Aldo? – disse Marcos – não há muita.


–Podemos trazer mais do outro lado do canal, dos mananciais; ou também podemos oferecer a nossa, que pode ser mais pura.
*******.

Mundos Paralelos ® – Textos: Gabriel Solis - Arte: André Lima.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Mundos Paralelos - Capítulo 4 - 4.7

4-4.7

(Contacto Violento.

Os veículos marcianos quase não se enxergavam na escuridão.
O Engesa partiu atrás deles com os holofotes acessos e homens trepados em cima com bazookas, mas a ordem não era atirar, senão não perdê-los de vista.


Os carros marcianos,
deslizando a grande velocidade sobre lagartas de um metro de largura, eram semelhantes a tratores antárticos. Estavam pintados de cor vermelha escura; cinza e verde escura; de forma a camuflar-se no areal e na floresta.


Parecia incrível, mas o
Engesa, após aproximar-se deles a menos de 50 metros, logo ficou para trás. O Auto-N com os holofotes ligados, passou como uma rajada de vento pelo Engesa, cobrindoo de pó vermelho. Pelo rádio ouviu-se a voz de Aldo:

–Deixem conosco, agora são nossos! Fechem o escudo no acampamento e preparem a defesa. Deixem uma nave de prontidão!

Os marcianos chegaram à floresta e se
camuflaram, ficando quietos. O Auto-N aproximou-se da floresta. Elvis parou o veículo e largou os controles.

–Desapareceram. E este treco não entra aí – murmura.

–Impossível, estão perto, sem fazer barulho para passar despercebidos – disse Aldo ajustando o infravermelho do seu visor.

–Uns disparos de bazooka os farão sair – disse Marcos.

–Ainda não, espere um pouco... Ah! Estão lá! – disse Aldo ligando o escudo.


Brilhou uma luz púrpura e ouviu-se uma detonação, o veículo estremeceu.


–Quê foi isso? – gritou Marcos


–Acertaram-nos – disse Aldo – mas vi de onde veio. Desligue o escudo.


Aldo pegou a bazooka e atirou. O projétil explodiu, sacudindo brutalmente o carro marciano; abrindo-lhe um buraco na parte traseira e virando-o pela força do impacto. Ficou de frente para os antárticos. Sem dar tempo a nada, Marcos colocou outro foguete, Aldo apontou e disparou. O disparo entrou no pára-brisa, atravessou a porta interior, saiu pela porta posterior e bateu numa árvore; explodiu e fez a árvore cair sobre ele, afundando parcialmente o teto.

Para ver-se livres da árvore, os marcianos ligaram o motor, mas ficaram presos entre a árvore caída e as outras. As lagartas arranharam o solo sem resultado.

–Já são nossos! – disse Aldo, atirando pela terceira vez.


O terceiro entrou pelo pára-brisa e explodiu dentro; fez voar o teto e parte do
lado esquerdo da máquina. Quando Aldo apontou por quarta vez, agora com bom ângulo e iluminado pelos holofotes, abriu-se pela direita uma portinhola e por ela saíram três marcianos feridos com as mãos em alto.

–Ganhamos. Elvis, fique no carro, Marcos, venha comigo.


Aldo e Marcos aproximam-se. Nos microfones externos dos capacetes ouviram
os marcianos lamentando-se no seu idioma. Por gestos, Aldo indicou-lhes que tirassem os cintos. Eles obedeceram e Marcos recolheu as armas. Aldo ouviu gemidos no interior do carro. Aldo introduziu-se no carro e viu um deles, desesperado de dor com uma perna presa por uma viga metálica.


Aldo chamou por gestos um dos
prisioneiros e este entrou. Com uma mão levantou a viga e com a pistola fez um gesto ao outro marciano que percebeu que devia ajudar a tirar seu camarada da incômoda posição. O marciano retirou o ferido e examinou a perna deste. Aldo percebeu que era uma fratura e mandou o marciano levar seu amigo para fora.
Logo chegou o Cascavel
da Polaris, com uma dezena de homens em cima, armados com armas leves.

–Vejo que dominou a situação, capitão – disse Luis.

–Chega a tempo. Temos um prisioneiro ferido. Vamos levá-lo!


Os homens colocaram o ferido no Auto-N e partiram para o acampamento com
os dois marcianos feridos levemente, para que recebam atendimento médico. Aldo e Luis, com ajuda dos tripulantes deste, engancharam o Cascavel ao carro marciano e o tiraram da floresta. O marciano restante ligou o motor que ainda funcionava. Logo partem para o acampamento.

*******.


sexta-feira, 1 de abril de 2011

Mundos Paralelos - Capítulo 4 - 4.6

4-4.6

(Diário pessoal de vôo do Capitão Luis Fagúndez, da Polaris).

Decidimos não esperar o amanhecer, como tinha sido combinado com Aldo, já
que Inge, conhecedora da curiosidade e teimosia de Aldo, nos disse que ele atravessaria o lago nessa mesma noite, sabedor de que os recolheríamos pela manhã.

Pouco depois sobrevoávamos o areal. De cima se podiam ver as luzes da Urbe marciana. Elvis sugeriu aterrissar na margem, de onde era transmitida a localização do sinal-código do navegador.


Desci na praia de areia úmida, perto de umas grandes
rochas. Entre elas e minha nave vimos um amontoado de coisas que reconhecemos como parte do equipamento dos exploradores. Pouco depois, Andrés, Elvis, Inge e eu descemos, seguidos por alguns dos meus homens e fomos até o equipamento.

–Olhem! – a voz de Elvis quase arrebentou meus fones – Marcas de lagartas!

–Onde?


–Aqui, mais de um metro de largura.


–Devem ser veículos possantes. Dirigem-se para o rochedo – observou Inge.


–Vamos seguí-las, esperem-me – disse a voz de Andrés no meu capacete.


Procurei-o com a vista e vi sua silhueta infravermelha na beira das águas,
vindo em nossa direção. Quando Andrés e mais um grupo reuniram-se conosco, iniciamos a subida ao rochedo no qual supúnhamos que deveriam encontrar-se os carros que deixaram aquelas marcas. No momento em que achei que vira umas silhuetas querendo ocultar-se no alto do rochedo, ouço nos meus fones a voz de Rojo Weiss, meu segundo de bordo:

–Venham! O barco está voltando!


–Aldo! – chiou Inge, estraçalhando meus ouvidos.


Voltamos, mas ao chegar ao terreno plano, tive a sensação de ser espionado e
olhei de novo e vi outra vez aquelas silhuetas movendo-se O infravermelho não permite perceber detalhes e não pude definir aquilo.

Aldo e seus acompanhantes subiram a bordo da Polaris e meus tripulantes
recolheram seu equipamento e o barco ao compartimento de carga. Decolamos em seguida e voltamos. Ao chegar, saíram ao nosso encontro as garotas.

Quê sorte!... Penso na minha esposa em Antártica. Agora vejo que estou longe
dela, longe mesmo. Isto tudo me lembrou da saudade que sinto dela...”
******



22 de maio. Amanhece.
Meus tripulantes ainda dormem.


Vou ao banheiro, barbeio-me e tomo um
banho enquanto vejo a paisagem pela clarabóia.


Foi minha primeira noite dormida
no nosso novo alojamento. Uma noite em que esqueci que estava em Marte e na qual tive um sonho erótico com minha esposa.

Coloco uma muda de roupa limpa e o traje. Verifico a carga da mochila,
ponho o capacete e saio ao exterior. Está fria esta manhã, o que me obriga a ajustar o controle térmico. Entro no alojamento principal da tripulação da Antílope e me recebe a bonita psicóloga Regina Cardelino.


Tiro o capacete e coloco as luvas
dentro. Ela pega-o sorridente e pendura-o na parede. Coloco minha mochila num cabide. Bárbara Blanes está sentada na frente do terminal, conversando com alguém de outro alojamento. Tamara Wilkins e Eva Klinger estão indo daqui para lá com coisas, e ouço a voz do Dr. Klinger no dormitório, cuja porta está entreaberta.

–Como estão os exploradores?

–Ótimos Luis. Nico, como todo médico, está exagerando. Não se preocupe
com a parafernália. Está dando-lhes revitalizantes via intravenosa. Ainda estão na cama. Nico não dormiu a noite toda. Ficou do lado deles sem arredar pé, atento ao menor movimento. Coisa ridícula!

–Isso demonstra um grande zelo da sua parte, não acha?


–Concordo Luis, mas não era para tanto. Confesso que sofri por eles, mas,
apesar de notá-los magros, não achei nada neles que me preocupasse.

Regina era uma jovem psicóloga, que além de ter estudado lingüística, tinha conhecimentos de medicina. Era uma linda e capacitada jovem de cérebro privilegiado, uma típica cria de Antártica, assim como minha esposa...

Nesse momento apareceu Nico, com a barba por fazer, seus olhos azuis
estavam avermelhados e o cabelo loiro desarrumado.

–Bom dia, doutor.

–Bom dia, capitão. Presumo que terá vindo para ver os heróis.


–Se for possível.


–Logo acordarão. As pastilhas e o alimento desidratado passaram a prova de
fogo. Foi só o que comeram. Perderam uns quilos e limparam seus organismos, mas aprendi muito com essa aventura deles.

Nesse momento, Tamara apareceu.


–Boris acordou e quer se levantar.


–Está bem. E me traga um café bem forte, por favor.


–É pra já, Nico, você está horrível. Deveria dormir um pouco.


–Depois.


Tamara desapareceu e Regina disse:


–Eu pego o café, Tama!


Boris apareceu recém penteado e cheirando a sabonete perfumado.


–E aí, “cara”? – disse com seu típico jeito irreverente de brasileiro.


–Como você está? – perguntei.


–Disposto para outra.


–Gostaria de saber alguma coisa a mais sobre vossa excursão campestre.


–Há muito que contar – disse ele rindo com sincera felicidade.


Regina entrou nesse instante com quatro taças de café preto que colocou em
cima da mesa e em seguida beijou carinhosamente seu namorado Boris.

–Obrigado, querida.

Nico e eu bebemos. O café estava delicioso. Sem dúvida brasileiro.


–Luis, se quer saber mais entre no sistema. Descarregamos as imagens restantes ainda ontem. Inge deve estar processando-as. Não é, Regina?

–Levantou cedo e foi para o terminal. Há quatrocentas imagens.

–Quero saber o que vocês viram do outro lado.


–Ah... Sim. A cidade deles. Vimos marcianos cara a cara. Eles nos viram e
gritaram. Nós os vimos e gritamos. Acho que nos assustamos com a quantidade e pulamos no barco. Olhando atrás vimos um grupo nos apontando incrédulos. Parece que não recebem muitas visitas.

–Todo Marte deve saber que estamos aqui – observou o Dr. Klinger.


–Sim podem fazer-nos a guerra, Luis, eles têm armas de alto poder.


–Vi a descrição que vocês fizeram – respondi – Mas nós temos um arsenal
nuclear suficiente para pulverizar este planeta. Não será fácil nos derrotar.

–Mas eles levam no cinto uma pistola que faz mais estrago do que uma granada de morteiro e talvez fure o vitrotitânio, Luis.
*******.


22 de maio, pela tarde.
Esta tarde; nos reunimos, para ver uma projeção feita pelo sistema, com imagens da exploração da floresta e do canal. Aldo mencionou o Engesa que ficou abandonado e eu mandei dois dos meus tripulantes a buscá-lo. Eles colocaram seus impulsores e elevaram-se à floresta, seguindo o sinal-código do Engesa.
*******.


22 de maio, anoitece.
Meus tripulantes ainda não chegaram com o Engesa, mas já se comunicaram e disseram que estão vindo pela trilha. Logo estarão aqui.


Como há muita gente, o
trabalho foi colocado em dia e o pessoal recolheu-se cedo para jantar e descansar.

No alojamento principal temos reunião de capitães. Jantamos, Aldo, Elvis, Andrés e eu. Após o cafezinho ser servido, entrego a mensagem do Dr. Valerión para Aldo, que a lê e após uma pausa olha-nos um por um.

–Não há mais mensagens para mim?


–Sim, estas – diz Andrés entregando-lhe um malote.


Aldo lê todas as mensagens enquanto nós tomamos o delicioso café.


–A Terra deve estar com mais problemas por estas horas, amigos.


–Quê novidade! – disse Andrés – sabemos disso.


–Fale – disse laconicamente Elvis.


–No atentado da Lua, como sabem, não só foram destruídas várias naves
como também morreram os nossos líderes principais, aliás, os que estavam visíveis, para serem alvo, voluntariamente, como sabemos. Agora temos apenas Valerión como líder visível e outro que nem eu sei quem é, mas Valerión me garante que ele está velando por nós. Se não me engano, este líder desconhecido, é o fundador do Esquadrão Shock, além de ideólogo.

–E onde se supõe que esteja esse líder?


–Não sei, Andrés. Sei que está em contato permanente com Valerión.


–Mas o que esse líder desconhecido pode fazer por nós?


–Parece que já está fazendo, Elvis. Pelo seu intermédio foi nomeado no lugar
do falecido Preissler; um militar Antártico fortemente doutrinado na Nossa Idéia, o tenente general Guerrero.

–Guerrero? O chileno Max Guerrero? – disse eu.

–O mesmo, Luis. O conhece?


–Claro que o conheço! – respondi entusiasmado – Servi na força aérea com
ele. Ambos somos de Puerto Montt, no sul chileno. Não podiam ter escolhido ninguém melhor do que ele para servir à Causa!

–Mas, que medidas foram tomadas por ele afinal? – perguntou Elvis.

–Por estas horas já deve ter isolado a Lua. Valerión mandou uma freqüência
para contato com ele na Lua para manter-nos informados, sempre que possível.

–Isso é bom? – observou Elvis – Em que nos ajuda a Lua isolada?

–Filtra e dificulta a entrada de parasitas camuflados e traidores. Além do
mais, monopolizou todo o transporte lunar; as bases espaciais próximas da Lua; ocupou os escritórios de Port Armstrong; colocou a produção a serviço da construção de colônias, comprou muitos mísseis nucleares da China; que parece que está por enquanto; do nosso lado, embora discretamente.

–Os malditos jamais conseguirão submeter à China, eles não têm como se infiltrar nela – disse Andrés – e menos agora, que o Japão resolveu ajudar com tecnologia por baixo do pano.

–Isso é bom, o chinês tem um idioma praticamente impenetrável, além da sua maior riqueza que é sua raça – disse Aldo – Não é assim tão fácil para os malditos parasitas camuflar-se na China.

–A colônia japonesa da Lua está pronta para lançar-se ao espaço – disse
Andrés – Colaboram com Valerión. Antes de vir, passei no complexo industrial que Valerión montou na Cara oculta.

–Isso é reconfortante. Entrarei em contato assim que seja possível – disse
Aldo, servindo-se outro cafezinho – Se Guerrero nos apóia, estamos com tudo.


Assobiaram as válvulas da eclusa, alguém estava chegando. A porta interna
abriu-se e entrou a Sacerdotisa Odínica Ingeborg Stefansson, bonita como uma deusa nórdica, acompanhada dos meus tripulantes que buscaram o Engesa.

–Como foi?


–Estava como foi deixado.


–Inge – disse Aldo – faça contato com Valerión – Aqui tem o código da
freqüência secreta dele.

De repente, Inge fixa a vista na janela do alojamento e empalidece.

–Olhem na janela! – grita.


O grito nos assusta a todos, não o esperávamos. Na janela havia um
marciano; e ao ver-se descoberto desapareceu.


De imediato coloquei meu capacete e
as luvas. A mochila já estava nas minhas costas. Entramos os seis na eclusa e não esperamos a mudança de pressão, Aldo abriu a comporta e o ar nos empurrou para fora. Dos alojamentos apareceram pessoas, entre elas, Lúcio Cardelino, pistola em mão; que atirou sem acertar, as balas passaram perto da cabeça do marciano.


O ser
atravessou correndo agilmente a pista de pouso, prestes a desaparecer. Eu e Lúcio fomos atrás. Lúcio não acertou, apesar de ser um grande atirador, acho que isso tem a ver com a gravitação e o ar rarefeito. Aldo gritou nos fones:

–Fechem o escudo!

O marciano bateu no escudo e caiu atordoado, mas levantou-se. Nessa altura
éramos muitos em perseguição. Levou a mão ao cinto e não encontrou a arma, caída perto dele. Tentou pegá-la e Lúcio atirou nela, que saltou vários metros.


Então o ser pulou do chão e tentou pegar a arma por segunda vez. Lúcio empunhou a arma com as duas mãos, fez pontaria e atirou. A pistola marciana explodiu com violência, surpreendendo-nos; não esperávamos por isso. A explosão atirou o marciano por cima do escudo.


O ser levantou-se, aparentemente sem sofrer danos. Lúcio disparou
mais dois tiros, mas as balas bateram no escudo e desintegraram-se. A voz de Aldo ressoou nos meus fones:

–Desliguem o escudo, preparem o Engesa!


–Aldo, peguem o auto-N! – gritei – É mais rápido!

Foi assim que a noite encontrou-me no auto de colchão de ar, perseguindo um
marciano enxerido, que estava nos espionando.

Computador! Suspender diário! Gravar! (1) arquivo(s) copiado(s)

(Do diário pessoal de vôo do Capitão Luis Fagúndez da Polaris)

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Fotos: Homenagem ao filme "Angry Red Planet"(1959).